13/05/2019

Jogar uma moeda pode substituir experimentos com animais?

Redação do Diário da Saúde
Jogar uma moeda pode substituir experimentos com animais?
Os pesquisadores de fato jogaram moedas como critério de avaliação dos resultados de vários estudos sobre drogas que alegam proteção contra o derrame: Os resultados do sorteio foram similares aos dos experimentos. [Imagem: Sophie Piper et al. - 10.1371/journal.pbio.3000188]

Experimento versus sorteio

Em vez de repetir experimentos em modelos de doença - animais de laboratório geneticamente modificados para simular os sintomas dos humanos - os pesquisadores Sophie Piper e Ulrich Dirnagl, da Universidade de Medicina Charité de Berlim, propõem uma alternativa estarrecedora.

Segundo eles, fazer um sorteio jogando uma moeda para cima dá resultados tão bons para confirmar se um candidato a medicamento protege o cérebro contra um derrame quanto usar os animais de laboratório.

Com esta proposta provocativa e aparentemente absurda, os pesquisadores afirmam pretender expor drasticamente um problema que afeta muitos estudos em biomedicina experimental: Amostras pequenas, muitas vezes abaixo de 10, e critérios fracos para aceitar uma significância estatística levam a uma alta taxa de resultados falso-positivos e a uma superestimação dos efeitos verdadeiros.

O estudo alerta os pesquisadores de que, ao contrário da expectativa comum, a replicação de um estudo - em condições que são comuns em inúmeros laboratórios em todo o mundo - pode não acrescentar mais evidências ao que poderia ser obtido jogando uma moeda e vendo se o resultado é cara ou coroa.

Replicação de experimentos

Vários campos de pesquisa estão lutando com o que se convencionou chamar de "crise da replicação".

Muitas vezes, os resultados obtidos em um laboratório não aparecem quando outros pesquisadores replicam o mesmo experimento em outro laboratório, com as taxas de replicação bem-sucedidas geralmente ficando abaixo dos 50%. Isso abala a confiança na robustez do empreendimento científico em geral e tem estimulado uma busca pelas causas dessas incongruências.

Afinal, repetir experimentos em outros laboratórios e obter os mesmos resultados é parte integrante de uma ciência robusta e da boa prática científica.

Meta-análises

Piper e seus colegas, depois de examinar a utilidade de replicar experimentos entre laboratórios, enviam uma mensagem surpreendente de cautela em relação às práticas atuais adotadas pelos cientistas.

Eles fornecem informações teóricas e práticas detalhadas sobre como conduzir adequadamente e relatar experimentos para ajudar os cientistas a economizar recursos e evitar o uso fútil de animais, ao mesmo tempo em que trabalham para aumentar a robustez e a reprodutibilidade de seus resultados. Essas recomendações técnicas, totalmente voltadas aos próprios cientistas, foram publicadas na revista científica PLOS Biology.

"A replicação é um fundamental do processo científico. Podemos aprender com a replicação bem-sucedida e com falhas de replicação - mas apenas se projetarmos, executarmos e relatarmos adequadamente [os experimentos]," escreveu a equipe.

Do ponto de vista do público, o alerta é importante para que anúncios de pesquisas e estudos sejam vistos com cautela, principalmente quando a amostragem é pequena. A comunidade científica hoje lida com essas diferenças nos experimentos conduzindo os chamados estudos de revisão, ou meta-análises, em que os experimentos e estudos de uma determinada área são revisados em termos de critérios, procedimentos, resultados e conclusões - é comum que grande parte dos estudos originais não passem pelos crivos de uma revisão e sejam descartados.

 

Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br

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