Identificado alvo para combater a leishmaniose

Remédio?

A leishmaniose é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das chamadas "doenças negligenciadas", por atingir populações pobres de países em desenvolvimento e, por isso mesmo, não receber a devida atenção da indústria farmacêutica para pesquisa de novos medicamentos.

Enquanto isso, a doença continua sendo tratada com os antimoniais pentavalentes, que são caros, tóxicos e ineficazes.

Além de serem os responsáveis pelo surgimento de um dos super-micróbios mais ameaçadores ao homem que se conhece.

Algumas esperanças, contudo, começam a surgir.

Desenhando o alvo

Um estudo feito por pesquisadores brasileiros e norte-americanos pode contribuir para o desenvolvimento de um novo fármaco que possa impedir que o parasita causador da doença infecte e se prolifere em humanos.

A equipe demonstrou pela primeira vez a importância da localização de uma enzima dentro do glicossoma - organelas exclusivas da família dos tripanosomatídeos, a qual as leishmânias pertencem - do parasita causador da doença, que pode ser um potencial alvo para impedir o crescimento do protozoário.

O trabalho foi realizado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com colegas da Escola de Medicina da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

Arginase

Nos últimos anos, o grupo de pesquisadores da USP tem-se dedicado a entender como o parasita causador da leishmaniose se relaciona com o homem e quais materiais utiliza para assegurar sua sobrevivência ao infectar um hospedeiro.

Um desses materiais é a arginase - enzima de uma via metabólica das leishmânias que é fundamental para o crescimento do parasita e está compartimentada em seu glicossoma.

Na pesquisa realizada em parceria com cientistas dos Estados Unidos, foi demonstrada que a compartimentalização adequada da arginase no glicossoma da Leishmania amazonensis é importante para a atividade e para possibilitar que o parasita infecte o hospedeiro.

Isto abre a possibilidade de se interferir no ciclo da doença, utilizando um novo medicamento que consiga inibir a enzima do parasita, por exemplo, de modo a interromper a infecção.

"A descoberta mais importante deste estudo foi identificar a importância da localização da arginase, que é um alvo importante para impedir que o parasita cresça em mamíferos", avaliou Lucile Maria Floeter-Winter, coordenadora do estudo.

Ciclo da leishmaniose

O parasita da leishmaniose é transmitido ao homem por insetos vetores conhecidos como flebotomíneos, como o mosquito-palha, que, ao picar um mamífero para se alimentar de seu sangue, injeta nele o protozoário na forma promastigota (com um flagelo longo).

Para combater o parasita, o organismo humano e de outros mamíferos infectados recrutam células de defesa do sangue, conhecidas como macrófagos, para interceptá-los. Porém, o protozoário consegue se multiplicar no interior dos macrófagos.

Ao romper, os macrófagos liberam essas células na forma amastigota (sem flagelo), que migram pelo corpo à procura de um tecido onde possam se multiplicar e se estabelecer. E, ao picar um humano ou animal infectado, o mosquito flebotomíneo se infecta pelo parasita, fechando o ciclo da doença.

Segundo a pesquisadora, para que possa ser mais eficaz do que os tratamentos utilizados, uma nova droga para combater a leishmaniose deverá percorrer toda essa trajetória de desenvolvimento do parasita e, por conseguinte, da enzima arginase.

"Como essa enzima está compartimentalizada dentro do glicossoma, do parasita na forma amastigota, do fagolissomo (lisossomo que realiza fagocitose) e dentro do macrófago, uma nova droga ou fármaco para leishmaniose deverá fazer todo esse percurso para inibir a arginase: atravessar a membrana do macrófago, do fagossomo, do parasita e do glicossoma. E isso representa um caminho árduo", avaliou.


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