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02/08/2013

Como o ser humano sobrevive a fenômenos extremos?

Karenina Velandia - BBC

As possibilidades são remotas, mas podem acontecer: uma pessoa é capaz de sobreviver à queda de um edifício de 15 andares ou à intensidade de um raio.

Em junho deste ano, o inglês Tom Stilwel caiu da varanda de um edifício de 15 andares em Auckland, na Nova Zelândia. Ele sobreviveu.

Um mês depois, a norte-americana Kendra Villanueva foi atingida por um raio no Estado do Novo México. Ela estava grávida e deu à luz um bebê saudável logo depois do acidente.

São eventos pouco comuns que podem causar ferimentos similares ou mais graves do que os causados por incidentes mais frequentes, como atropelamentos, explosões ou terremotos.

Mas como essas pessoas sobrevivem?

Quando uma pessoa é atingida por um raio, a descarga elétrica passa pelo coração, causando uma parada cardíaca imediata, o que leva normalmente à morte da vítima. Caso ela sobreviva, pode ficar com lesões internas graves, além de queimaduras que vão desde o ponto de entrada ao de saída da descarga elétrica.

No caso de uma queda de uma grande altura ou ficar preso sob os escombros de um terremoto, os ferimentos costumam estar relacionados à fratura dos ossos, falta de circulação sanguínea ou problemas respiratórios.

As lesões podem variar dependendo do tipo de acidente que o indivíduo tenha sofrido, mas a reação do organismo costuma ser a mesma.

Instinto de sobrevivência

As explicações atuais dão conta de que, quando o corpo é submetido a uma situação de estresse, o sistema nervoso simpático é acionado.

Através de uma série de mecanismos biológicos e fisiológicos, como o aumento das pulsações ou da respiração superficial, o corpo humano começa a tentar preservar o funcionamento de órgãos vitais, como o coração e o cérebro.

"É um instinto de sobrevivência e de preservação que, dependendo da gravidade dos ferimentos, pode ter resultados positivos", explica o médico Juan González Armengol, presidente da Sociedade Espanhola de Medicina de Urgências e Emergências.

Segundo Octavio Ávila, médico e vice-diretor da Cruz Vermelha no México, a liberação de hormônios em uma situação de tensão, seja psicológica ou física, é fundamental para o organismo porque o prepara para lidar com essa circunstância.

"O primeiro hormônio a ser liberado é a adrenalina que, entre outras coisas, fortalece os músculos, o que ajuda a diminuir a sensação de dor. Há casos nos quais uma pessoa pode correr mesmo tendo uma fratura na perna".

Ávila também diz que os processos metabólicos de resposta ao trauma acontecem em cadeia no corpo.

"Em linhas muito gerais, poderíamos dizer que a primeira etapa é hormonal, certas glândulas secretam substâncias como o cortisol ou os hormônios da tireoide. A segunda etapa é celular - ali se ativam os glóbulos brancos e os leucócitos, entre outros. Neste cenário, as substâncias pró-inflamatórias e as contra-inflamatórias também têm um papel importante. Deste equilíbrio, depende muito a evolução do paciente," completa o médico.

Entre a vida e a morte

Os dois especialistas concordam que a quantidade visível de sangue não é um indicativo da gravidade dos ferimentos. Isso porque alguém pode chegar à sala de emergência de um hospital absolutamente coberto de sangue, mas com feridas superficiais.

Por outro lado, outra vítima chega caminhando, aparentemente bem, e seu baço pode estar a pronto de se romper.

Um exemplo desse último caso poderia ser de uma pessoa que caiu de uma varanda de um edifício, como o inglês Tom Stilwel. Neste caso, é importante estar preparado para possibilidade de que haja complicações, diminuindo o risco de morte e o desenvolvimento de lesões posteriores.

"No caso de politraumatismos severos, deve-se seguir o protocolo Programa Avançado de Apoio Vital em Trauma (ATLS, na sigla em inglês)", diz o médico espanhol.

Este programa de atenção traumatológica, utilizado em vários países, é composto por cinco fases que devem ser repetidas constantemente:

  • O primeiro passo é observar se há alguma obstrução que impeça o paciente de respirar.
  • O segundo é auscultar o tórax para determinar se há feridas internas que possam dificultar a respiração.
  • Em seguida, se analisa a circulação para prevenir hemorragias.
  • Depois disso se descartam possíveis problemas neurológicos.
  • E, finalmente, deve-se manter o ferido sem roupa, mas com cobertas, para evitar que sofra de hipotermia.

Hora H

Para González Amengol, as circunstâncias que originaram as lesões são fundamentais na possibilidade de sobrevivência de alguém que tenha sofrido um acidente muito grave.

Em um acidente de automóvel, por exemplo, tem influência se a colisão foi por trás ou pelo lado do carro ou se alguém perdeu a vida.

Ávila acrescenta que a evolução do paciente depende de muitos fatores. "Alguns deles são a condição de saúde do paciente antes do acidente - uma pessoa com diabetes ou alguma doença degenerativa tem um quadro mais complicado -, a resistência dos órgãos e a gravidade do trauma".

Outro elemento fundamental, na opinião do vice-diretor da Cruz Vermelha no México, é que o paciente seja transferido para uma unidade especializada em traumas. Em alguns casos, segundo ele, a vítima é encaminhada a uma maternidade ou a um centro de outra especialidade, o que diminui as possibilidades de estabilizar sua condição.

A rapidez com que essa transferência é realizada também tem um peso muito importante na possibilidade de recuperação de uma pessoa com ferimentos internos graves.

"Há uma 'hora H' justamente depois do acidente e já está comprovado que se a equipe médica atua neste momento, o paciente pode sobreviver. Claro, isso não vale para situações extremas, como o rompimento da aorta (a maior artéria do corpo humano, que leva sangue do coração para o restante do corpo) ou a perda de massa encefálica. Neste cenário, é muito provável que o paciente morra em mais ou menos 15 minutos", afirmou Amengol.


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