Dilemas da prevenção do câncer: As Celebridades e a Mamografia

Dilemas da prevenção do câncer: As Celebridades e a Mamografia
Gemma Jacklyn e Alexandra Barratt, autoras deste artigo, são pesquisadoras da Universidade de Sydney (Austrália).
[Imagem: Cedidas pelas autoras]

O Diário da Saúde vai publicar uma discussão levantada por especialistas que questionam a forma como a prevenção do câncer, sobretudo do câncer de mama, está sendo abordada pela imprensa no mundo todo.

Parte I: As Celebridades e as Mamografias

Parte II: Quando a prevenção vira risco

Parte III: Celebridades ignoram a Ciência

Parte IV: Repensar o uso da palavra câncer

Neste primeiro artigo, as doutoras Gemma Jacklyn e Alexandra Barratt discutem como a ciência está sendo ignorada nas campanhas de rastreio do câncer.


Celebridades e mamografias

Celebridades começaram a gostar de fazer mamografia ao vivo na televisão, transformando esse procedimento geralmente muito particular em uma modalidade pública.

Nos Estados Unidos, Amy Robach, apresentadora do programa Good Morning America, fez uma mamografia transmitida ao vivo pela televisão que a levou a um diagnóstico de câncer de mama e a uma mastectomia dupla.

Depois disso, pelo menos duas outras celebridades fizeram o mesmo.

Essas mulheres têm uma mensagem simples que é fácil de adotar - a mamografia salva vidas.

Infelizmente, não é tão simples assim.

Benefícios do rastreio do câncer de mama

A grande maioria das mulheres pode se sentir incrivelmente aliviadas se receberem um resultado negativo depois de uma mamografia.

Mas nós sabemos que as mulheres costumam superestimar o risco de contrair câncer de mama, uma percepção que pode ser reforçada pelas campanhas de exames preventivos ou de triagem e pela publicidade gerada pelas celebridades.

Imagine que 1.000 mulheres de risco médio com 50 anos, sem sintomas nas mamas, optem por fazer uma mamografia a cada dois anos, até 69 anos de idade - aproximadamente 8 dessas mulheres morrerão de câncer de mama.

Agora imagine mais 1.000 mulheres idênticas que não se submetam aos exames preventivos - aproximadamente 12 destas mulheres irão morrer devido ao câncer de mama.

Isto significa que, se 1.000 mulheres de risco médio são examinadas a cada dois anos, dos 50 aos 69, 4 delas vão evitar a morte por câncer de mama.

Dito de outra forma, o rastreio a cada dois anos por 20 anos reduz o risco da mulher média de morrer de câncer de mama em um terço, de 1,2% para 0,8%.

Benefícios e riscos

Salvar a vida de quatro mulheres em cada 1.000 da morte por câncer de mama é de um valor enorme, mas o que acontece com as outras 996 que não recebem qualquer benefício da triagem?

Se elas estiverem cientes dos números acima, elas poderiam estar certas de que a ameaça de morte é relativamente pequena - 1,2 % das mulheres com idades ao redor dos 50 morrerão de câncer de mama nos próximos 20 anos, mesmo sem exames preventivos, e 0,8% com o rastreio.

A maioria das mulheres não percebe que estão mais propensas a morrer de câncer de pulmão ou de doenças cardíacas por que as campanhas de promoção do rastreio de mama têm sido muito boas em destacar os benefícios da detecção precoce, enquanto abordam inadequadamente os riscos desse rastreio [o risco de uma mulher não-fumante morrer de câncer de pulmão é de 1,4%].

Esses cálculos também podem ser uma interpretação otimista para os dados - é possível que agora, com tratamentos muito melhores disponíveis e muito mais consciência sobre o câncer de mama, o rastreio salve muito menos vidas do que estas estimativas sugerem.


No segundo artigo da série, que será publicado amanhã, as pesquisadoras discutem os riscos associados com os rastreios do câncer.

 


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