Etanol brasileiro está contaminado com exploração de trabalhadores

Economia colonial

Um estudo sobre a migração sazonal de camponeses do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, para o corte de cana-de-açúcar em São Paulo, mostra o lado mais perverso da produção de açúcar e etanol no Brasil.

O estudo, que levou cinco anos para ser concluído, foi realizado por Lúcia Cavalieri da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

A pesquisadora identificou os efeitos que a migração causa nas famílias desses trabalhadores, que vivem em uma das regiões mais pobres do país.

Energia limpa?

Segundo dados do estudo, apenas em 2007, cerca de 7.000 homens da região de Araçuaí, deixaram sua família e sua terra e migraram para cortar cana na produção industrial do açúcar e do álcool no interior do estado de São Paulo.

De acordo com a pesquisadora, o estudo, além de ser um importante para o campesinato brasileiro, evidencia o outro viés da produção de etanol e de açúcar.

"Além dos homens fazerem um trabalho degradante nas plantações de cana-de-açúcar, eles também ficam cerca de nove meses longe de suas famílias. Isso causa grande desgaste emocional e desestruturação familiar. Esse é o custo que uma parcela das famílias brasileiras paga para obtermos a, equivocadamente chamada, energia limpa proveniente do etanol da cana-de-açúcar", infere Lúcia.

Morte por exaustão

Os baixos salários pagos pelas usinas de processamento de cana-de-açúcar aos cortadores influem diretamente na qualidade de vida destes.

"Por receberem por produção (toneladas/dia) e não por horas de trabalho, muitos cortadores morrem por exaustão, no intuito de auferir um pouco mais de renda à família", expõe a pesquisadora.

Segundo ela, o argumento ambiental não pode prevalecer sobre os aspectos sociais.

Enquanto isso, os usineiros utilizam o argumento da geração de emprego para retardar a mecanização do trabalho de colheita e continuam queimando a cana, gerando um volume incalculável de poluição.

"Enquanto as usinas recebem incentivos governamentais para a produção de etanol, em grandes porções de terras, as famílias dos cortadores, continuam em situação econômica e social precárias," conclui.

Sofrimento familiar

O pesar não é apenas dos bóias-frias que partem.

"As mulheres são as que mais sofrem neste processo", afirma a pesquisadora, "são mulheres fortes, que trabalham na terra, exercem atividades domésticas e que ainda são responsáveis pelos serviços básicos e de educação. Contudo, sentem a ausência das relações familiares e dos maridos, que passam ao menos nove meses longe," relata.

Estas famílias não migram de forma definitiva, permanecendo nos seus municípios de origem, mantendo uma migração temporária.

Este aspecto peculiar, segundo a pesquisadora, deve-se às comunidades possuírem uma identidade muito forte e um sentimento de pertencimento àquela porção de terra e àquele modo de vida: "O dia-a-dia e o tratar da terra faz muito sentido. Mais sentido do que a vida fora da comunidade".


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