Hipertensão com diabetes pode levar à cegueira

Retinopatia diabética

A tendência genética à hipertensão arterial está associada aos fatores que desencadeiam uma das mais freqüentes complicações crônicas do diabetes: a retinopatia diabética, lesão na retina que pode levar à cegueira. A relação foi demonstrada pela primeira vez por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O estudo, realizado por Jacqueline Mendonça Lopes de Faria, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Pesquisa. O projeto, concluído em junho, foi a base de um novo estudo sobre o tema, já em andamento.

Diabetes é principal causa de cegueira

De acordo com Jacqueline, a pesquisa, cujo objetivo era aprofundar a compreensão da patogênese da retinopatia diabética, tem grande impacto, uma vez que o diabetes é a principal causa de cegueira em pessoas em idade produtiva no mundo.

"Graças aos hábitos alimentares e ao sedentarismo, a doença está em franca expansão no mundo ocidental. Por outro lado, os diabéticos hoje vivem mais, o que torna as complicações crônicas cada vez mais comuns", disse a pesquisadora à Agência FAPESP.

Genética da hipertensão

Segundo Jacqueline, a hipótese inicial do estudo era que a genética da hipertensão - mesmo antes da manifestação clínica do problema - contribuiria decisivamente para exacerbar a inflamação retiniana na presença de diabetes.

"Comprovamos a hipótese e demonstramos que a hipertensão está associada ao processo inflamatório e ao estresse oxidativo na retina. O tratamento da hipertensão previne os dois problemas", explicou.

Hiperglicemia

O estresse oxidativo é o resultado do excesso de produção de radicais livres, que reduz a capacidade do sistema antioxidante presente em cada tecido. "Com o diabetes, a hiperglicemia causa um estresse oxidativo e a produção de radicais livres é aumentada, levando a alterações de proteínas, DNA e lipídios nas células", disse.

Tendo comprovado o papel da hipertensão no desencadeamento da inflamação e do estresse oxidativo, o objetivo agora é demonstrar como ela acentua a neurodegeneração, um aspecto inicial da complicação retiniana.

"Esse é o objetivo do projeto em andamento, que será concluído em junho de 2008. Queremos saber qual é a via principal que liga o estresse oxidativo à morte celular programada. Nossa hipótese é que se trata de uma disfunção mitocondrial nas células neurais da retina", destacou.

Experimento em ratos

Para realizar a pesquisa, Jacqueline utilizou modelos animais experimentais. Ratos que tinham, espontaneamente, características genéticas de hipertensão, foram tornados experimentalmente diabéticos no laboratório.

"O interesse era entender as alterações inflamatórias e de estresse oxidativo, que são eventos precoces na patogênese. Por isso, estudamos os modelos em um período curto, de um mês de duração, após a indução do diabetes", contou Jacqueline.

Nesses casos, segundo ela, foi constatada, por meio de marcadores biocelulares e bioquímicos, acentuada reação inflamatória nos animais, em comparação a grupos de controle saudáveis. "Por meio de marcadores também observamos alterações do estresse oxidativo. Houve aumento da produção de superóxido e de defesas antioxidantes da retina", afirmou.

Alterações funcionais da retina

Segundo ela, sabe-se clinicamente que diabéticos com acuidade visual perfeita têm alterações funcionais da retina. Isso foi comprovado experimentalmente. "A partir de exames de eletrorretinograma, notamos que os potenciais visuais são alterados antes mesmo de qualquer alteração clínica da retinopatia diabética", disse.

Com isso, haveria alterações funcionais que precederiam as alterações observáveis. "A complicação progride mais rapidamente em certos pacientes do que em outros. Por isso, achávamos que a hipertensão concorria com a hiperglicemia, o que foi constatado", disse.

O estudo levantou suspeitas de que, embora a retinopatia diabética seja considerada uma inflamação nas células vasculares, outras células da retina podem estar envolvidas.

"Sabemos agora que outros tecidos além dos vascular são afetados. O tecido da retina é predominantemente neural, por isso é razoável imaginar que as células neurais também sejam acometidas pela hiperglicemia", afirmou Jacqueline.

Morte celular programada

No estudo atual foram utilizados modelos de ratos geneticamente hipertensos, mas com tempo mais prolongado: 12 semanas de duração a partir da indução do diabetes. "O objetivo é identificar se a morte programada de células da retina também é um dos eventos iniciais da retinopatia diabética", explicou.

Foi observado que os animais diabéticos têm de fato um aumento de células em apoptose - a morte celular programada - na camada dos fotorreceptores. "Nossa pergunta é se a hipertensão aumenta o índice de apoptose na retina. Vimos que, quando os animais são hipertensos e diabéticos, esse aumento é acentuado, o que sugere que a concomitância agrava o efeito de células degenerativas", disse a pesquisadora.

Tratando os animais com uma droga bloqueadora do sistema, o Losartan, usado normalmente para tratamento de hipertensão arterial, Jacqueline confirmou que houve redução significativa das células em apoptose em relação à situação normal. "Esse tratamento também preveniu os efeitos oxidativos e a inflamação", disse.


Ver mais notícias sobre os temas:

Olhos e Visão

Genética

Alimentação e Nutrição

Ver todos os temas >>   

A informação disponível neste site é estritamente jornalística, não substituindo o parecer médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde e aos seus tratamentos e medicamentos.
Copyright 2006-2017 www.diariodasaude.com.br. Conteúdo publicado sob licença de www.sciencetolife.com. Todos os direitos reservados para os respectivos detentores das marcas. Reprodução proibida.