Preconceito sozinho não explica diferença salarial entre raças

Capital humano

Ao analisar a discriminação racial sob uma ótica econômica, o economista Gustavo Andrey de Almeida Lopes Fernandes, da USP, constatou que existe, no Brasil, uma elite branca, formada majoritariamente por brancos e amarelos, de um lado, e uma pobreza geral, composta por brancos, negros, pardos e amarelos, de outro.

Isso se deve, principalmente, ao capital humano que é um conjunto de fatores ligados à educação, localização e experiência, entre outros aspectos que valorizam a pessoa no mercado de trabalho. "Em São Paulo, estudar em escola privada é o fator de capital humano que mais aumenta os salários", afirma Fernandes.

De acordo com o economista, essa configuração cria um ciclo vicioso em que apenas alguns brancos e amarelos têm uma escolaridade melhor e ganham salários mais altos, e, portanto, podem colocar seus filhos em escolas privadas.

Em seu estudo, ele constata que o grande problema do País é a falta de capital humano, que predomina em todas as raças.

Ao contrário de pretos e pardos, contudo, há entre os brancos uma pequena elite branca, que eleva as médias salariais da grande maioria do grupo. Dessa forma, a discriminação racial é um problema econômico menor diante dessa configuração social.

O economista analisou os fatores causadores da diferença de salários existente entre as raças, levando em conta os erros de mensuração que podem existir. Fernandes procurou diferenciar aquilo que é decorrente de disparidades de capital humano, ou seja, aspectos que valorizam a pessoa na questão salarial, daquilo que é, de fato, fruto do preconceito racial.

Discriminação estatística

O estudo constatou que o valor médio do salário de um branco pode ser 42% maior que de um negro ou pardo, devido ao capital humano médio que cada grupo possui.

Esse contraste, contudo, não pode ser considerado inteiramente como consequência do preconceito racial. Ele é também um reflexo da desigualdade entre os valores de capital humano que os grupos têm em média.

Na hora de escolher um empregado, quando o empregador tem poucas informações sobre os candidatos, a opção pelo branco seria pela maior probabilidade de ele ser mais qualificado do que o pardo ou negro.

O economista nomeia esse fenômeno de discriminação estatística.

Entretanto, para o pesquisador, a metodologia de mensuração da discriminação tem algumas ressalvas: existe a falta de dados qualitativos sobre alguns fatores do capital humano.

Por exemplo, o Censo do IBGE descreve o nível de escolaridade das pessoas, mas a qualidade das escolas e faculdades não é levada em conta. Além disso, o agrupamento de negros e pardos como um grupo só, em todo o Brasil, não é realístico, considerando as diferenças de como as pessoas são vistas em cada região.

Preconceitos

Quando o País é dividido em regiões para um estudo mais específico. Utilizando dados da PNAD, notam-se diferenças salariais entre pardos e negros no nordeste e sudeste (menos o Estado de São Paulo), enquanto em São Paulo e no sul não havia mudanças relevantes entre esses dois grupos. As regiões norte e centro-oeste não foram contabilizadas por não existirem informações suficientes sobre elas nas pesquisas utilizadas.

O economista percebeu então que a hipótese de preconceito racial não é afastada nos empregos de menor salário. Isto ocorre porque, entre funcionários com curso superior, a faculdade e a experiência são os diferenciais para o trabalhador, mas quando a concorrência se dá entre trabalhadores pouco qualificados não há muitas informações para servir de base de escolha, e aí pode entrar o preconceito do empregador.

Por exemplo, em um processo seletivo para uma vaga de faxineiro, muitas vezes o critério da escolaridade não é utilizado. Assim, há um fator importante do capital humano a menos na seleção do empregador. Quanto menos base de escolha ele tiver, mais a sua opinião pessoal, preconceituosa ou não, pode entrar no processo.


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