Saúde auditiva no Brasil baseia-se em dados de outros países

Saúde auditiva no Brasil baseia-se em dados de outros países

Surdez brasileira

No Brasil, os programas de saúde direcionados à audição humana são baseados em dados de outros países, como os Estados Unidos, mas nem sempre condizem com a realidade brasileira.

Uma pesquisa em andamento na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) busca exatamente mudar este quadro. Pesquisadores estão realizando o levantamento das condições auditivas de mil moradores da cidade mineira de Juiz de Fora, iniciativa que levará à formação de um banco de dados brasileiro sobre surdez. A pesquisa está sendo conduzida pela médica otorrinolaringologista Letícia Raquel Baraky.

Surdez incapacitante

O objetivo do trabalho é determinar a prevalência da surdez incapacitante no Brasil, visando subsidiar a elaboração de estratégias para resolução dos problemas apontados. O estudo foi o ganhador, na categoria Projetos, do 1º Prêmio Inovação Medical Services - Novos Caminhos em Saúde Pública, lançado pela Sanofi-Aventis do Brasil. Mais de 140 trabalhos participaram do concurso, nas áreas de gestão, prevenção de saúde e formação profissional. Os ganhadores foram anunciados no último dia 9 de junho.

De acordo com Letícia, o estudo traz contribuições importantes na área da saúde auditiva, pois o Brasil carece de pesquisas em epidemiologia. "Programas de saúde auditiva são realizados com base em material da Organização Mundial de Saúde (OMS) porque ainda não existem dados nacionais sobre o assunto", comenta a pesquisadora, que também é professora da UFJF. Para ela, "é necessário que outros trabalhos semelhantes sejam feitos visando entender de forma realista as condições de saúde da população e, assim, promover a alocação adequada de recursos, bem como a implantação de projetos que estejam em acordo com esta realidade."

O estudo epidemiológico abrange moradores de 308 residências de Juiz de Fora, no interior de Minas. O trabalho de campo já foi encerrado e está na fase de análise estatística. Foram entrevistados desde bebês com 12 dias de idade até idosos de 95 anos. Os participantes responderam a questionários sobre o histórico de saúde e passaram por exames audiométricos. Letícia explica que a cidade de Juiz de Fora servirá de modelo para que o estudo seja aplicado em outros municípios.

Tratamento precoce

O projeto tem como meta, ainda, avaliar a situação brasileira em relação aos transtornos auditivos, de maneira quantitativa e possibilitando o planejamento eficaz para a sua redução e o tratamento precoce. O estudo trará dados úteis à população de Juiz de Fora e se integrará aos estudos nacionais. Segundo o professor Ricardo F. Bento, os dados epidemiológicos coletados nesse levantamento serão de extrema importância para municiar as autoridades de saúde no direcionamento das ações de saúde pública, uma vez que até agora as estratégias eram baseadas em trabalhos internacionais, que não se ajustam à nossa realidade.

De acordo com Letícia, outros objetivos específicos da pesquisa são realizar levantamento socioeconômico a fim de se estabelecer possíveis correlações da surdez e fatores sócio-econômicos-culturais encontrados em diferentes faixas etárias; identificar as causas de perda auditiva incapacitante e comparar os resultados, dentro das faixas etárias estudadas, com dados mundiais de referência; criar um banco de dados regional para avaliar mudanças e eficácias das intervenções realizadas; e identificar possíveis variantes ambientais relacionadas à surdez incapacitante, relacionando-as a fatores de risco e proteção.


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