Sites de relacionamento alteram prioridades da ciência

Sites de relacionamento alteram prioridades da ciência
É necessário um maior esforço para melhorar o conhecimento científico do público, dos políticos e da mídia, segundo os autores, e para envolver um público que não se diferencia mais dos especialistas.
[Imagem: St. Michael s Hospital]

Mídia social e ciência

Os sites de relacionamento começam a expandir suas influências para além do comportamento de jovens e adolescentes.

As empresas já haviam descoberto a importância de mensagens veiculadas em sites como Orkut, Facebook e Youtube, criando departamentos para evitar danos à sua imagem.

Agora foi a vez dos cientistas descobrirem que o trabalho e as prioridades da ciência podem ser fortemente influenciados pelo que se comenta na chamada "mídia social".

Desbloqueio de veias para esclerose múltipla

As prioridades nas pesquisas foram redirecionadas no Canadá, privilegiando um tratamento controverso para esclerose múltipla, depois que mais de 500 páginas e vídeos no Facebook e Youtube chamaram a atenção para essa linha de pesquisa.

Paulo Zamboni, um cirurgião italiano, sugeriu, em 2008, que a esclerose múltipla não seria uma doença auto-imune, mas sim uma doença vascular causada por bloqueios no cérebro.

Ele propôs desbloquear as veias mecanicamente, alargando-as - o que ele chama de "processo de liberação".

Sua hipótese mereceu pouca atenção do público, exceto no Canadá, onde mais de 500 páginas do Facebook dedicadas à teoria alcançaram dezenas de milhares de seguidores.

Venoplastia

Uma pesquisa mostrou que mais da metade dos canadenses conhece a teoria, que ganhou repercussão também na mídia tradicional, como jornais e canais de TV.

Pesquisadores da Universidade Memorial, em Toronto, notaram que a discussão provocou um debate nacional sobre se pacientes com esclerose múltipla deveriam ou não receber suporte financeiro imediato dos órgãos de saúde pública para terem acesso ao tratamento de ampliação das veias, conhecido como venoplastia.

Isso apesar do fato de que praticamente nenhum médico ou pesquisador canadense defendeu o tratamento.

Na verdade, vários estudos não conseguiram replicar os resultados originais de Zamboni.

Prioridades das pesquisas

"Na verdade, o caso indica que a pressão sem precedentes que cientistas, políticos e financiadores em todo o mundo podem agora enfrentar para alterar as prioridades das pesquisas, mesmo na ausência de provas científicas críveis," escreveram os autores em um artigo na revista Nature.

Os autores afirmam que, nesse ambiente de novos meios de comunicação social, médicos e pesquisadores precisam se engajar mais ativamente com o público para articular a importância da ciência para determinar os benefícios e os riscos de novos tratamentos - e assegurar a adequada ponderação entre as preocupações dos pacientes e as prioridades das pesquisas.

Eles afirmam que os tratamentos não convencionais e não comprovados têm sido propostos e testados para muitas doenças. "Agora, ferramentas como o Facebook e o YouTube tornam consideravelmente mais provável que os pacientes tomem conhecimento sobre tais terapias, sem necessariamente conhecer suas possíveis limitações."

Comunicação científica

Os autores escrevem que uma lição clara a partir do exemplo da pesquisa de Zamboni é que as abordagens tradicionais para comunicar as descobertas científicas, tais como artigos, notas informativas, notícias e conferências de imprensa, são insuficientes.

"Quando os grupos de pacientes estão usando as mídias sociais para se defender e mobilizar, os cientistas devem empregar instrumentos igualmente eficazes para se comunicar," afirmam eles.

É necessário um maior esforço para melhorar o conhecimento científico do público, dos políticos e da mídia, segundo os autores, e para envolver um público que não se diferencia mais dos especialistas.


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