Vacina contra febre reumática começará a ser testada em humanos

Vacina contra febre reumática começará a ser testada em humanos
Bactéria nas células da faringeNULL de animais vacinados impedem o ataque.
[Imagem: Laboratório de Imunologia/USP]

Vacina brasileira

Em 2011 poderão acontecer os primeiros testes em seres humanos de uma vacina brasileira contra a bactéria precursora da febre reumática, doença autoimune que provoca problemas cardíacos em cerca de 15 milhões de crianças todo os anos.

No Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), os testes com camundongos mostraram que a vacina imunizou de 80% a 100% dos animais.

Para que a expectativa se concretize no próximo ano, os cientistas precisam preparar a documentação a ser submetida à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e esperar a resposta do órgão.

Dose adequada da vacina

Segundo a médica Luiza Guilherme, que está a frente do projeto, a vacina é fruto de uma pesquisa de 20 anos no Incor que custou cerca de R$ 10 milhões à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O medicamento precisa passar por pelo menos três fases de testes antes de chegar ao mercado, o que deve custar R$ 6 milhões nos próximos anos. Os testes, feitos com voluntários, vão mostrar com qual intensidade a vacina é capaz de induzir resposta no corpo humano e as reações que pode provocar.

O que é febre reumática

A febre reumática é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico causa dores nas articulações e passa a destruir válvulas do coração.

Ela atinge principalmente crianças e adolescentes de países pobres e começa com uma infecção na garganta pela bactéria Streptococcus pyogenes.

Se a infecção não é tratada, entre 1% e 5% das crianças adquirem dores nas articulações. Dessas, entre 30% e 40% vão desenvolver problemas cardíacos.

Os problemas acontecem por que as células do sistema imune aprendem a combater a proteína M, presente na superfície do S. pyogenes, mas a confundem com proteínas do coração e articulações.

Ação imunológica

Para fazer uma vacina contra a bactéria, os cientistas do Incor passaram a procurar por um trecho que sensibilizasse as células de defesa (linfócitos T e B) contra a bactéria.

Para isso, escolheram uma região de 100 aminoácidos na base da proteína M, mais próxima ao estreptococo. Essa base varia muito pouco nas cerca de 200 cepas (o equivalente bacteriano a raças) do S. pyogenes e não induz os linfócitos a destruírem proteínas do corpo humano.

Os cientistas fizeram 79 peptídeos (pedaços de proteína) muito parecidos, cada um com 20 aminoácidos da região selecionada. (veja na ilustração). Enquanto isso, recolheram amostras de linfócitos T de 260 pessoas e soro do sangue, que mede a reatividade dos linfócitos B, de 620 pessoas.

Eles passaram os anos de 2005 e 2006 testando cópias dos 79 peptídeos nas 880 amostras. No total, foram 69.520 análises. Depois dos testes, os pesquisadores encontraram na proteína M um trecho capaz de induzir o corpo a produzir anticorpos contra a bactéria e passaram a testá-la em animais.

Eficácia da vacina

Em dois testes diferentes, camundongos foram vacinados e receberam uma quantidade de bactérias suficiente para matá-los. Entre 80% e 100% dos animais resistiram.

Em um terceiro teste, colocaram o soro dos camundongos imunizados em uma cultura de células da faringe, onde injetaram bactérias. Os estreptococos não foram capazes de infectar as células. A vacina também funcionou em miniporcos.

Todo ano, 616 milhões são infectados pela bactéria e cerca de 15,6 milhões desenvolvem a doença, informa uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2005. No mesmo ano, a doença matou 283 mil crianças e adolescentes. No Brasil, o Ministério da Saúde identificou 10 milhões de infecções e 15 mil novos casos de doença cardíaca por ano.

"Esses números são subestimados", diz Luiza. "No Brasil, por exemplo, apenas alguns centros de saúde tem dados sobre a febre. Vários outros países da América Latina não mandam informações para a OMS."

A pesquisa foi desenvolvida com colaboradores ligados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Investigação em Imunologia.


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