Vendendo a alma: cérebro processa valores sagrados por outras vias

Vendendo a alma: cérebro processa valores sagrados por outras vias
Os valores sagrados ativam uma área do cérebro que não está relacionada com os processos de pensamento que envolvem ganhos e benefícios.
[Imagem: Emory University]

Reino do sagrado

Os valores pessoais que as pessoas se recusam a renegar, mesmo quando lhes é oferecido dinheiro para fazê-lo, são processados de forma diferente no cérebro em relação aos "valores mais frágeis", que podem ser de bom grado vendidos pela quantia adequada.

Um estudo baseado em neuro-imagens mostra que a tomada de decisões sobre esses "valores sagrados" utiliza um processo cognitivo distinto.

"Nosso experimento revelou que o reino do sagrado - quer se trate de uma forte crença religiosa, uma identidade nacional ou um código de ética - é um processo cognitivo distinto," diz Gregory Berns, da Universidade Emory (EUA) e principal autor do estudo.

Valores sagrados

Valores sagrados ativam mais fortemente uma área do cérebro associada com processos de pensamento baseados em regras e em questões do tipo certo ou errado.

Já os "valores não tão sagrados" ativam regiões relacionadas com o processamento de questões que envolvem custos versus benefícios.

"Nós desenvolvemos um método para começar a responder questões científicas sobre como as pessoas tomam decisões que envolvem valores sagrados, o que tem implicações importantes se você quiser entender melhor o que influencia o comportamento humano nos diferentes países e culturas," diz Berns.

"Estamos vendo como valores culturais fundamentais são representados no cérebro," completa ele.

Vendendo a alma

Na primeira fase, os participantes viam afirmações desde um mundano "Você é um bebedor de chá", até questões polêmicas, como "Você apoia o casamento gay" e "Você é contra o aborto".

Cada uma das 62 afirmações tinha um par contraditório, como "Você é a favor do aborto".

Os participantes tiveram que escolher uma afirmação de cada par.

No final do experimento, os participantes tinham a opção de leiloar suas declarações pessoais: a negação das suas escolhas anteriores em troca de dinheiro real.

Os participantes podiam ganhar até US$100 por declaração simplesmente concordando em assinar um documento afirmando o oposto do que eles acreditavam.

Eles podiam optar por sair do leilão em declarações que valorizavam muito.

"Nós usamos o leilão como uma medida de integridade para cada declaração," explica Berns.

Oferta de incentivos

As imagens cerebrais mostraram uma forte correlação entre os valores sagrados e a ativação dos sistemas neurais associados com a avaliação de certo e errado (a junção temporoparietal esquerda) e com a recuperação de regras semânticas (o córtex pré-frontal ventrolateral esquerdo), mas não com sistemas associados com a recompensa.

"A maioria das políticas públicas é baseada no oferecimento de incentivos e desincentivos às pessoas," diz Berns. "Nossas descobertas indicam que não é razoável pensar que uma política baseada em custos e benefícios vá influenciar o comportamento das pessoas quando se trata de seus valores pessoais sagrados, pois eles são processados em um sistema cerebral totalmente diferente do que aqueles que envolvem incentivos."

Neurociência cultural

"Conforme a cultura muda, ela afeta nossos cérebros, e conforme nosso cérebro muda, isto afeta a nossa cultura. Você não pode separar os dois," diz Berns. "Nós agora temos os meios para começar a entender essa relação, o que está ajudando a estabelecer o campo relativamente novo da neurociência cultural."

Os resultados foram publicados na revista científica Philosophical Transactions, da Real Sociedade Britânica.


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