05/02/2021

Cientistas questionam causalidade entre colesterol e doenças cardiovasculares

Redação do Diário da Saúde
Cientistas questionam causalidade entre colesterol e doenças cardiovasculares
Outras equipes já haviam demonstrado que tratamentos para colesterol ruim não reduzem risco de doenças cardíacas.[Imagem: LipoSearch/Divulgação]

E se o colesterol não fizer mal?

Na ciência, às vezes uma nova perspectiva pode virar nossa interpretação dos dados de cabeça para baixo, exigindo o que os cientistas chamam de uma "mudança de paradigma".

Por exemplo, houve, e continua havendo, desacordos ferozes na ciência da nutrição sobre o que constitui uma dieta saudável.

Uma das controvérsias-chave envolve o papel das gorduras saturadas na saúde e nas doenças.

As gorduras saturadas são conhecidas por aumentar os níveis de colesterol no sangue, e o aumento do colesterol no sangue é frequentemente observado em pessoas que desenvolvem doenças cardiovasculares.

Por conta disso, há mais de meio século a maioria dos cientistas tem dito que as gorduras saturadas na dieta promovem doenças cardíacas porque aumentam o colesterol no sangue.

Mas, no mundo real - e não na interpretação dos cientistas - duas coisas estarem juntas (associação) não significa que uma delas causa a outra (causalidade).

Hipótese dieta-coração

Agora, um novo modelo explicativo está desafiando essa chamada "hipótese dieta-coração", defendendo uma explicação alternativa para essa ligação dieta-colesterol-doenças cardiovasculares.

Três cientistas noruegueses estão contestando a hipótese dieta-coração como uma pergunta simples e direta: "Por que as gorduras saturadas aumentam o colesterol no sangue e por que isso seria perigoso? "

Afinal, as gorduras saturadas ocorrem naturalmente em uma ampla variedade de alimentos, incluindo o leite materno.

"O colesterol é uma molécula extremamente importante para todas as células do corpo," explica a professora Marit Zinöcker, da Universidade Bjorknes (Noruega). "Uma célula é cercada por uma membrana fluida que controla a função celular, e as células dependem da capacidade de incorporar uma certa quantidade de moléculas de colesterol, para que suas membranas não se tornem muito rígidas ou muito fluidas."

"A base do modelo é que, quando as gorduras saturadas substituem as gorduras poli-insaturadas na dieta, é necessário menos colesterol nas membranas celulares," explica ela.

O oposto é verdadeiro quando se ingere mais ácidos graxos poli-insaturados, que incluem os ácidos graxos ômega-3 e ômega-6. "Isso ocorre porque as gorduras poli-insaturadas da dieta entram em nossas membranas celulares e as tornam mais fluidas. As células ajustam a fluidez das suas membranas incorporando o colesterol recrutado da corrente sanguínea," explica Zinöcker.

Segundo o modelo apresentado pelos pesquisadores, isso pode explicar por que os níveis de colesterol sanguíneo diminuem quando comemos mais gorduras poli-insaturadas.

Os pesquisadores chamaram seu novo modelo de "Adaptação Homeoviscosa aos Lípides na Dieta" (HADL, Homeoviscous Adaptation to Dietary Lipids).

Ácidos graxos

Em seu artigo, os pesquisadores discutem outras razões para o colesterol LDL elevado em pessoas com doenças cardiovasculares, como inflamação de baixo grau e resistência à insulina.

Isso indica que o colesterol sanguíneo elevado causado por distúrbios metabólicos deve ser desacoplado do colesterol sanguíneo elevado causado por uma grande mudança na ingestão de ácidos graxos saturados da dieta. E também questiona o benefício de reduzir o colesterol no sangue adicionando ácidos graxos poli-insaturados à dieta, e não lidando com a causa primária.

"Há, na melhor das hipóteses, indícios fracos de que uma alta ingestão de gordura saturada causa doenças cardíacas," acrescenta o professor Simon Dankel. "Os dados gerais são inconsistentes e não convincentes, para não mencionar a falta de uma explicação lógica biológica e evolutiva. Além disso, as pessoas com distúrbios metabólicos muitas vezes não apresentam as mudanças esperadas no colesterol no sangue quando mudam sua ingestão de gordura, sugerindo falta de resposta normal."

Os pesquisadores afirmam que, embora o modelo seja baseado no conhecimento existente dos mecanismos celulares, ele ainda precisa ser verificado, recomendando à comunidade científica que discuta o modelo e testem-no com todos os dados que tiverem disponíveis.

 

Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br

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