Aborto: mulheres solteiras abortam 10 vezes mais do que as casadas

Aborto: mulheres solteiras abortam 10 vezes mais do que as casadas
Pesquisa realizada com mais de 1,7 mil mulheres indica que as solteiras têm quase dez vezes mais chances de abortar do que as casadas, mesmo engravidando muito menos.
[Imagem: Ministério da Saúde]

Menos gravidezes, mais abortos

Uma pesquisa feita na cidade de São Paulo indicou que as mulheres solteiras têm quase dez vezes mais chances de abortar do que as casadas. O estudo mostra que as solteiras, que engravidam em uma escala muito menor, recorrem mais largamente ao aborto provocado (18%). Menos de 2% das gestações das mulheres casadas resultam em aborto provocado.

O estudo, publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, foi realizado por Rebeca de Souza e Silva, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Elisabeth Meloni Vieira, professora do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP).

Epidemia silenciosa

Os objetivos, segundo as autoras, foram caracterizar a ocorrência do aborto provocado ao analisar o número de filhos, idade e uso de contraceptivos - comparando casadas e solteiras -, fornecer subsídios para estimar a prevalência do aborto provocado e detectar fatores que mais contribuem para a sua ocorrência.

De acordo com Rebeca, a mortalidade materna no Brasil ainda é elevada, principalmente por conta do aborto provocado. Mas, segundo ela, trata-se de uma "epidemia silenciosa" que ocorre com mais frequência do que se consegue detectar com entrevistas diretas.

"Como se trata de um assunto de foro íntimo e criminalizado, estima-se uma omissão de 80% dos abortos provocados. É como se o problema não existisse", disse Rebeca à Agência FAPESP.

Aborto na adolescência

A amostra reuniu 1.749 entrevistas, sendo 764 com mulheres casadas, 658 com solteiras e 327 de outras categorias maritais, em idade fértil (15 a 49 anos) e concentradas no subdistrito da Vila Madalena, em São Paulo, considerada uma área de classe média alta.

Estudo feito por outro grupo em 1987 já indicava a tendência atualmente consolidada, mas a metodologia incluía apenas as mulheres grávidas. "Naquela época, adolescentes, solteiras, sem filhos, favoráveis à prática do aborto e usuárias de métodos contraceptivos não eficazes, eram as que apresentavam a maior chance de abortar, considerando apenas aquelas com alguma gestação e não o total em idade fértil", contou.

Em outra pesquisa, feita em 1993 por Rebeca e Elisabeth, como as adolescentes começaram a apresentar elevada fecundidade, "as outras variáveis, além da idade, começaram a imprimir maior chance de aborto provocado".

A alta prevalência de aborto entre adolescentes chama a atenção, segundo a pesquisadora. De cada 100 casos de gravidez entre mulheres de 15 a 19 anos, 60 terminaram em aborto. "A proporção das que interrompem a gestação é imensa", destacou.

Segundo a professora da Unifesp, o limite do estudo é territorial, pois o recorte se refere a uma região privilegiada do município de São Paulo. "Não saberia dizer se para o Brasil como um todo essa discrepância é tão acentuada entre solteiras e casadas", apontou.

Mortalidade materna

Embora a pesquisa não estabeleça a distinção, a pesquisadora lembra, citando outros estudos, que são as mulheres menos escolarizadas e as mais pobres as que mais frequentemente abortam. Já as mulheres mais favorecidas economicamente, segundo ela, estão recorrendo cada vez menos ao aborto provocado, e só o fazem quando falha o método utilizado - o que ocorre raramente, pois recorrem a alternativas eficazes como pílula, DIU ou mesmo a esterilização.

"Quando recorrem ao aborto provocado, entretanto, o fazem em adequadas condições de higiene, com pessoal médico qualificado e raramente apresentam sequelas físicas - ao contrário das mulheres com menor renda", compara.

Mas, independentemente da classe social, o que chama a atenção, segundo Rebeca, é a prevalência de mulheres no início da vida sexual com aborto provocado. A mortalidade materna no Brasil causada pelo aborto provocado responde por uma boa parcela dos casos de óbitos no país, de acordo com a pesquisadora.

Segundo Rebeca, os países em desenvolvimento estabeleceram, em acordos internacionais, a meta de reduzir a mortalidade materna em 75% de 2000 a 2015. Mas até o fim de 2006, apesar de ter aumentado o número de exames pré-natal, de parto humanizado e do acesso a contraceptivos, o Brasil havia conseguido uma redução de apenas 6% na mortalidade materna.

"Por quê? Porque o país continua a ignorar a existência do aborto provocado. É impossível cumprir a referida meta sem dar atenção adequada ao assunto", destacou.


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