Amizades alteram percepção de injustiça

Amizade e injustiça

Durante situações de decisão econômica, a amizade é uma das variáveis que modulam nosso cérebro, tornando o ser humano incapaz de se sentir injustiçado.

A conclusão é de uma pesquisa desenvolvida no Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e publicada no The Journal of Neuroscience.

O estudo teve como objetivo estudar o papel da confiança na tomada de decisão social e suas bases neurobiológicas.

Para isso, Camila Campanhã e Paulo Sérgio Boggio basearam-se na teoria dos jogos, ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas nas quais jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno.

Teoria dos jogos

Inicialmente desenvolvida como ferramenta para compreender comportamento econômico e depois usada até mesmo para definir estratégias nucleares, a teoria dos jogos é hoje aplicada em diversos campos acadêmicos.

Campanhã conta que para a realização do experimento foi utilizado o Ultimatum Game, jogo utilizado na neuroeconomia e por estudiosos do comportamento social.

Composto por participantes da faixa etária de 18 a 25 anos, o jogo foi dividido em dois blocos. No primeiro, o computador enviou propostas econômicas justas e injustas de amigos (que se encontravam em ambientes diferentes). No segundo, as propostas foram feitas por integrantes do laboratório, desconhecidos dos participantes.

Os valores das propostas foram classificados como justos (50:50), mais ou menos justos (70:30) e muito injustos (80:20 e 90:10). "Os participantes receberam a mesma quantidade de propostas justas e injustas, tanto do amigo como do desconhecido, enviadas pelo computador. Registramos toda a atividade eletroencefalográfica desses participantes durante o experimento", disse Campanhã.

Nesse tipo de experimento, caso a pessoa aceite a proposta, ambos recebem o valor combinado. Se ela recusar, os dois não recebem nada.

"Do ponto de vista comportamental, observamos que as pessoas rejeitaram muito mais as propostas injustas do desconhecido do que as oferecidas pelo amigo - nas quais o amigo sairia ganhando mais. Além disso, essas pessoas pontuaram os amigos como mais justos do que os desconhecidos", destacou.

Processamento da injustiça

O estudo apontou uma inversão positiva na atividade neuroelétrica para as propostas de amigos. "A expectativa era que os dados seriam negativos conforme se recebessem propostas injustas do amigo. No entanto, os participantes não perceberam essa injustiça", disse Campanhã.

Segundo ela, a inversão de polaridade positiva está relacionada à satisfação de receber algo bom e justo, cuja recompensa está acima do esperado. Nesse caso, a dopamina é liberada. No sinal negativo há quebra de expectativa e a substância é inibida, gerando raiva.

"Ao realizarmos a análise para identificar a área do cérebro ativada naquele momento, observamos que o sinal elétrico apareceu no córtex pré-frontal medial anterior. Essa é uma área relacionada à habilidade de imaginar e tentar entender o que o outro está pensando e sentindo", disse.

"Não significa que as pessoas não processam a injustiça, mas esse processo é diferente quando se confia em alguém. É como se não precisasse tentar entender o que se passa com a outra pessoa ou o que ela está sentindo", disse.


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