Atendimento a diabéticos pelo SUS tem falhas de acompanhamento

Atendimento a diabéticos pelo SUS tem falhas de acompanhamento
Pacientes portadores de diabetes podem estar fazendo uso de doses acima ou abaixo do recomendado, colocando em risco a eficiência do tratamento e a própria saúde.
[Imagem: USP]

Remédios repetidos e doses incorretas

Pacientes portadores de Diabetes mellitus que utilizam o Sistema Único de Saúde (SUS) retiram medicamentos para tratar a doença de uma mesma classe, ou seja, com o mesmo princípio ativo.

Outros podem estar fazendo uso de doses acima ou abaixo do recomendado, colocando em risco a eficiência do tratamento e a própria saúde.

A conclusão é do pesquisador Camilo Molino Guidoni, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP. Ele utilizou o banco de dados da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, denominado Hygia.

Neste banco de dados são registrados de forma simultânea, além do atendimento, todos os procedimentos realizados na atenção primária e secundária junto aos usuários do SUS na cidade. Foram analisados, os medicamentos utilizados para tratamento de Diabetes mellitus, a frequência de retirada, a dose, a faixa etária e o gênero dos usuários.

Monitoramento do uso de medicamentos

"Conhecendo a prevalência de uma enfermidade e o perfil do usuário pode-se promover o uso racional dos medicamentos e contribuir com a otimização no uso de recursos públicos de saúde", diz Guidoni.

Levando-se em consideração que os gastos com saúde, segundo o Ministério da Saúde, aumentaram 9,6%, mas como os insumos farmacêuticos tiveram aumento de 123% no período de 2002 a 2006, o monitoramento da utilização dos medicamentos passa a ser essencial também para a saúde econômica do País.

Mulheres mais cuidadosas

A pesquisa revelou, por meio do cadastro de retirada de medicamentos antidiabéticos orais e insulina, que no Distrito Oeste, com população de cerca de 140 mil pessoas, tem 3.927 usuários portadores de Diabetes mellitus. A média de idade desses pacientes é de 60,4 anos, sendo que 55% deles estão acima dos 60 anos e 60,8% são do sexo feminino.

"Isso não significa que a mulher tem maior predisposição para a doença. Pode indicar somente que é consequência da sua maior expectativa de vida ou de que ela cuida mais da saúde do que os homens, como outras pesquisas já revelaram", diz Guidoni.

Medicamentos com mesmo princípio ativo

Outros dados dessa pesquisa se mostraram preocupantes. Aproximadamente 60% dos usuários utilizam um único medicamento ou só a insulina. Enquanto 28,4% fazem associação de dois tipos de medicamentos, cinco usuários (0,1%) utilizaram a associação de dois medicamentos da mesma classe.

"É inadequada a utilização conjunta de dois dos medicamentos que têm o mesmo princípio ativo, pois eles têm mecanismos de ação semelhantes e isso não é recomendado pela Food and Drug Administration (FDA), órgão governamental norte-americano de comercialização de medicamentos. Nesse caso pode estar ocorrendo duplicidade de receitas, uso indiscriminado do medicamento ou, ainda, o paciente pode estar estocando o remédio", resume.

Usa da insulina

A insulina como única terapêutica era utilizada no período por 3,3% dos usuários e 11,6% faziam a sua combinação com outros medicamentos. No período estudado, 5,7% diminuíram a utilização de um único medicamento, a chamada monoterapia, enquanto 8,6% passaram a fazer uso da politerapia, mais de um medicamento.

"Isso pode indicar o agravamento no quadro clínico, que pode estar relacionado à progressão natural do Diabetes mellitus, que é acelerada quando não tratada adequadamente". Entre os usuários desses medicamentos, 25,2% apresentaram variação na dose utilizada, sendo que 79,3% foram de aumento nessa dose.

Doses excessivas

O estudo revelou outro fato que preocupa, segundo pesquisador: o de que dez usuários que fizeram uso de dosagem acima do recomendado e 128 de dosagem abaixo do recomendado, segundo a frequência. "A administração de doses acima dos valores recomendados aumenta a probabilidade de reação adversa a esses medicamentos. Em contrapartida as doses abaixo podem contribuir para o insucesso do tratamento."

A frequência média de retirada de medicamentos ficou acima de 75% e somente 8,8% dos usuários apresentaram frequência inferior a 33,5%, sendo considerados desistentes do tratamento.

Guidoni lembra que não foi acessado o diagnóstico clínico do paciente e que a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto fornece quatro tipos de medicamentos, insulina e outros três tipos via oral. Esses pacientes podem usar dois medicamentos mais a insulina, pois dois deles são da mesma classe.

Maior cuidado com idosos

O estudo, segundo Guidoni, mostrou a alta prevalência da Diabetes mellitus em idosos, que também apresentam elevada presença de outras enfermidades e, ainda, necessitam de tratamentos múltiplos, o que pode acarretar em reações adversas.

"Um dos medicamentos, considerado mais seguro para idosos, não é padronizado pelo SUS, mas é fornecido pela Prefeitura Municipal somente para situações especiais e com indicação do médico endocrinologista. Apesar da boa iniciativa da Prefeitura, considerada a faixa etária prevalente dos pacientes com Diabetes mellitus, mais pacientes deveriam recebê-lo, no entanto somente 40 fazem sua retirada."

Segundo o pesquisador a diabetes é uma das doenças crônicas não transmissíveis mais prevalentes do mundo, com estimativa para 2025 de 7,1% e 14,0% da população mundial e brasileira, respectivamente, por isso é necessário o desenvolvimento de programas com ênfase na prevenção primária, controle da incidência e complicações do diabetes.

A pesquisa, Estudo da utilização de medicamentos em usuários portadores de Diabetes mellitus atendidos pelo Sistema Único de Saúde, orientada pelo professor Leonardo Régis Leira Pereira, foi defendida em março deste ano na FCFRP e é um dos quatro finalistas do I Prêmio de Incentivo à Promoção do Uso Racional de Medicamentos, promovido pelo Ministério da Saúde, cujo resultado será anunciado dia 8 de dezembro em Brasília.


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