Aula de Educação Física não precisa ser só futebol e vôlei

Atividades pouco ortodoxas

Uma escola pública em Itapevi, na Grande São Paulo, presenciou aulas de educação física com atividades pouco ortodoxas, nas quais os esportes conhecidos, como futebol e basquete, foram deixados de lado.

A "pesquisa-ação", desenvolvida pelo professor Mauro André, ofereceu oportunidades para os alunos modificarem regras e trazerem brincadeiras da rua para o ambiente escolar, de modo a alterar as relações dos jovens com a disciplina e o comportamento de cada um em determinada modalidade. Esse comportamento na prática de jogos foi analisado a partir de quatro temas: conflitos, cumprimento de regras, competitividade e expressividade.

Pesquisa-ação

O trabalho é definido por Mauro André como "pesquisa-ação", em que o papel de professor é mais importante que o de pesquisador. Ele quis aliar seu interesse pela literatura sobre o "teaching games for understanding" (ensino de jogos para a compreensão), em que a prática do jogo é permeada pela reflexão do jogo em detrimento da competição, a um trabalho que "fosse aplicável, voltado para os professores". Dessa forma, nasceu a experiência relatada em dissertação de mestrado defendida em junho de 2007 na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP.

O pesquisador foi concursado pela Rede Estadual de Ensino em 2006 e ficou responsável pelas turmas de 5as e 8as. séries. Com o projeto em mente, resolveu aplicá-lo em duas turmas de 5as séries, pois os alunos estavam menos "esportizados", e a dificuldade de implementação seria menor.

Brincadeiras de rua

Durante o primeiro semestre do ano, os alunos foram apresentados a diversos jogos, tais como "pelo cano" e "guerra dos cones", os quais, segundo André, eram desconhecidos para eles, já que sabiam apenas da existência dos "esportes que passavam na televisão". Esses jogos desconhecidos foram denominados "expostos" e constituem a primeira parte das atividades desenvolvidas pelo professor com a sala.

Criando novas modalidades de jogos

No segundo semestre, o objetivo foi o desafio de os alunos modificarem jogos já conhecidos por eles e trazerem modalidades desconhecidas tanto para os colegas de sala quanto para o professor, o que o pesquisador denominou, respectivamente, "jogos transformados" e "jogos espontâneos".

André escolheu esse período para filmar praticamente todas as aulas e selecionar quatro, que foram usadas para a análise de como os alunos lidavam com novos conjuntos de regras e situações de jogo.

Foram incluídos no trabalho dois jogos expostos ("pelo cano" e "guerra dos cones"), um jogo transformado (queimada) e um jogo espontâneo ("sete cacos").

Como funcionam os jogos

Em "pelo cano", os alunos, em dois times, têm que passar bolas de tênis por caixas de papelão com um orifício. Há três caixas de papelão e o objetivo do jogo é jogar a bola para que ela passe por dentro das caixas, sem que fique parada dentro delas. Para a realização de um passe, o jogador precisa fazer com que a bola toque ao menos uma vez no chão, antes que seu companheiro de equipe a pegue.

Já em "guerra dos cones", dois times tentam derrubar as garrafas uns dos outros, protegidas pelos membros da equipe adversária. Quatro ou cinco bolas fazem parte do jogo e podem ser arremessadas em direção às garrafas tanto com os pés quanto com as mãos.

Jogo de queimada e sete cacos

A queimada foi modificada de modos diferentes pelas duas salas: a primeira eliminou a figura do "morto", competidor que, após ser atingido pela bola, permanecia à parte do jogo. Depois das mudanças, ele apenas troca de time. A segunda turma manteve o "morto", mas criou uma forma de "salvação", o pênalti de futebol, cuja cobrança deveria ser confirmada por aquele que "queimou" para efetivar a jogada.

O jogo espontâneo, trazido por um aluno, foi o "sete cacos". Dois times têm objetivos diferentes em relação a uma pilha de cacos de telha no meio da quadra: quando um time derruba a pilha, este mesmo tem que empilhá-la de volta, enquanto o outro tenta "queimar" o adversário, atingindo-o com a bola.

Alterações no relacionamento meninos/meninas

O professor destaca a mudança de comportamento das crianças de acordo com o jogo no qual está inserida. Havia jogos em que meninos e meninas não se relacionavam bem. "Na queimada com pênalti, os meninos não admitiam perder para elas ou sequer contar com a presença feminina".

Eles e elas também encaram a competitividade de maneira diferente. "A motivação masculina é extrínseca, ganha-se para falar aos outros. As meninas cultivam mais o prazer pelo jogo, uma motivação intrínseca."

Dificuldade diminui competitividade

Em jogos cujo grau de dificuldade é maior, a competitividade diminui. "Em 'pelo cano', era necessário lidar com novas habilidades. Já em 'guerra dos cones', a presença de muitas bolas em quadra criava vários focos de atenção, diminuindo o número de conflitos", explica o pesquisador.

No jogo espontâneo, a sala do menino que trouxe a brincadeira não pediu a interferência do professor na decisão de regras, já que a brincadeira era de propriedade deles.

Poucos conflitos

André enfatiza que houve poucos conflitos, pois se aumentou a oportunidade de jogar e a variedade de jogos que compreendem mais tipos de habilidades. Outra observação do professor é que surgiram "discussões políticas em final de aula" para defesa de interesses e pontos-de-vista sobre as regras do jogo. "O jogo, a cultura e o jogador estão sempre ligados", afirma o pesquisador.


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