Brasileiros descobrem enzima indicadora de câncer

Heparanase

Uma enzima conhecida como heparanase vem sendo intensamente estudada por diversos pesquisadores como um possível marcador para o prognóstico de câncer.

Apesar disso, uma outra proteína que tem grande identidade com ela - e que por isso é conhecida como heparanase 2 - não vinha recebendo tanta atenção. Por não ter atividade enzimática, a expressão dessa proteína em tumores não havia sido estudada.

Diagnóstico do câncer

Mas um novo trabalho realizado por um grupo de pesquisadores brasileiros demonstrou pela primeira vez que a heparanase 2 (HPA2) tem sua expressão aumentada em tecidos de câncer colo-retal. Como a proteína tem baixa expressão em tecidos normais, ela poderá se tornar um marcador importante para prognóstico de tumores.

O estudo, feito por um grupo formado por pesquisadores da Faculdade de Medicina do ABC e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), coordenado pela professora Maria Aparecida Pinhal, foi publicado na edição de agosto do European Journal of Gastroenterology & Hepatology.

De acordo com Maria Aparecida, o primeiro estudo relacionando à HPA2 com tumores foi um trabalho realizado por seu grupo e publicado em 2007 na revista Neoplasia. Segundo o artigo, tanto a HPA2, descoberta em 2000, como a HPA1 têm expressão aumentada no câncer de mama, com presença correlacionada à progressão da metástase, ao aumento do tumor e ao pior prognóstico para a doença.

A professora afirma que é possível que enzimas da família das heparanases tenham a função de sinalizar para o desencadeamento da fisiopatologia do desenvolvimento tumoral.

"Minha hipótese é que a HPA2, embora não tenha atividade enzimática, possa sinalizar a ativação de outras enzimas que estariam relacionadas à secreção do proteoglicano de heparam sulfato, cuja expressão afeta as interações celulares e processos patológicos", disse à Agência FAPESP.

Além da expressão da HPA2 para o câncer colo-retal, o estudo avaliou também a expressão, para a mesma doença, de um proteoglicano de heparam sulfato conhecido como sindecam-1, notoriamente envolvido com a metástase e agressividade do tumor.

Para realizar o estudo, foram utilizadas reações imuno-histoquímicas para detectar a expressão de HPA2 e sindecan-1 em 50 tumores colo-retais e em 20 amostras de tecido saudável. Um método digital de imageamento foi usado para quantificar a imunoexpressão das enzimas.

Segundo a pesquisadora, os estudos sugerem que a HPA2 possa não ser apenas mais um marcador entre milhares. "Certamente, essa molécula é central no desenvolvimento de tumores. E nossos resultados indicam que ela pode ser um marcador definitivo para o diagnóstico de alguns tipos de câncer", afirmou Maria Aparecida.

No trabalho de 2007, a pesquisadora já registrava que uma alteração no tumor, ainda que mínima, tinha impacto na expressão dessa enzima nas células da fração mononuclear do sangue periférico. "Isso faz dessa enzima um marcador importante. Ela pode estar envolvida com o sistema imunológico e com a fisiopatologia do câncer", disse.

Além do objetivo aplicado, a pesquisa traz também uma contribuição para o melhor entendimento do mecanismo molecular dessas enzimas, segundo a professora. "Acreditamos que há mais formas de heparanases além da 1 e da 2. É possível que essas enzimas criem vias de sinalização específicas que resultam em uma regulação fina, bastante específica, da carcinogênese", destacou.

Detecção precoce

A relevância do estudo levou os editores do European Journal of Gastroenterology & Hepatology a publicar, na mesma edição, um comentário de autoria do também brasileiro Ricardo Giordano, que é pesquisador do Anderson Cancer Center, em Houston, Estados Unidos.

Segundo ele, ao apontar a expressão elevada da HPA2 em câncer colo-retal, o estudo chamou a atenção pelo ineditismo. Ninguém até agora havia citado essa relação na literatura. "A enzima pode ser um marcador interessante para permitir o diagnóstico precoce dos tumores. No caso do câncer colo-retal, esses marcadores ainda não existem", disse Giordano à Agência FAPESP.

Colonoscopia

O método de diagnóstico mais indicado atualmente para esse câncer, de acordo com o pesquisador, é a colonoscopia. O problema é que se trata de um procedimento invasivo, caro e que requer pessoal treinado. Além disso, o paciente precisa ser sedado.

"Outro método é o exame de sangue oculto nas fezes. Mas o grau de sensitividade desse exame é baixo e a freqüência de falsos positivos é muito alta. O ideal para realizar o diagnóstico precoce com eficácia e sem procedimentos invasivos seria desenvolver um teste de sangue, mas isso só será possível com a descoberta de marcadores", disse.

Câncer colo-retal

Segundo Giordano, cerca de 1,2 milhão de casos de câncer colo-retal são diagnosticados a cada ano. Apenas uma minoria é identificada no estágio inicial da doença, que anualmente mata cerca de 630 mil pessoas - o equivalente a 8% das mortes por câncer.

"A taxa de sobrevivência para pacientes com diagnóstico precoce é de 90%. Por outro lado, ela diminui em 68% em pacientes com câncer que já se espalhou para órgãos adjacentes e para 10% em pacientes com metástase avançada", ressaltou.


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