Ciência, cientistas responsáveis e a Torre de Marfim

Ciência, cientistas responsáveis e a Torre de Marfim
A "Torre de Marfim" é uma ideia antiga no meio científico, que tenta colocar os cientistas acima das leis e das regras das sociedades que financiam seus trabalhos.
[Imagem: Wikimedia]

Transparência da torre de marfim

Temos, por um lado, cientistas que estão convencidos de que devem ser deixados sozinhos em sua torre de marfim e que nem os políticos e nem o público em geral devem interferir com as suas atividades e pesquisas.

Aos seus olhos, a chave para a realização de uma ciência responsável é protegê-la de interesses externos, porque isso vai introduzir vieses nocivos.

"A ciência deve, portanto, ser completamente independente e autorregulada a fim de ser responsável," descreve Maja Horst, pesquisadora da Universidade de Copenhague (Dinamarca).

"Mas, por outro lado, há cientistas que acreditam que a torre de marfim deve ter uma porta aberta para que políticos, o público e a indústria possam participar do desenvolvimento da ciência. Esse envolvimento é visto como a única forma de garantir que a ciência se desenvolva de acordo com as necessidades e os valores da sociedade e, assim, cumpra suas responsabilidades sociais," prossegue Horst.

Para chegar a essas conclusões, Horst e sua colega Cecilie Glerup analisaram mais de 250 artigos focados na preocupação com o papel da pesquisa científica em relação à sociedade e, particularmente, a noção de responsabilidade dos cientistas.

"Podemos concluir que todos os cientistas estão profundamente preocupados que sua pesquisa seja responsável e útil à sociedade. Eles só discordam sobre o que significa conduzir pesquisas responsáveis - o quão transparente a torre de marfim deveria ser, se você preferir assim," relata Horst.

"Este é um problema porque, se temos diferentes definições do que significa ser um cientista responsável, fica muito difícil ter uma discussão frutífera sobre isso. Torna-se também muito difícil ser específico sobre como queremos que os cientistas ajam a fim de serem responsáveis," prossegue.

Ciência controversa

Segundo as duas pesquisadoras, as discussões sobre pesquisa responsável são particularmente importantes tendo em conta o fato de que áreas inteiras de pesquisa podem estar em risco se forem percebidas como irresponsáveis ou controversas.

"Cientistas no campo das células-tronco, nanotecnologia ou biologia sintética, que tem a ver com a criação de organismos biológicos artificiais, dão muita atenção à maneira como sua área de pesquisa é apresentada na mídia e percebida pelo público.

"Todos viram como o debate sobre os organismos geneticamente modificados chegou a um impasse com graves consequências para projetos de pesquisa robustos que simplesmente não conseguiam mais atrair financiamento. Ninguém mais queria ser associado com pesquisas de organismos geneticamente modificados depois dos debates acalorados," explica Horst.

Segundo as duas pesquisadoras, só há uma forma de encaminhar essa questão: uma discussão equilibrada do papel e das responsabilidades dos cientistas e da sociedade.

E, para que seja uma discussão, não se pode ouvir apenas um dos lados. Assim, é importante analisar o que a sociedade pensa e espera da ciência e dos cientistas que ela própria financia.


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