Comer muito sal faz mal? Façam suas apostas

Ciência do Sal tem pouco de científico
Quando o assunto é efeito do consumo de sal sobre a saúde, não parece haver "debate científico", mas "oposição científica".
[Imagem: Columbia University]

Disputa científica

Uma análise detalhada dos artigos científicos publicados até hoje sobre os efeitos do sal sobre a saúde revelou algo muito diferente do que se acredita ser a prática científica baseada em evidências.

O que se vê é que há uma clara polarização entre os cientistas favoráveis à hipótese de que a redução na ingestão de sal está associada a benefícios à saúde e aqueles que são desfavoráveis à hipótese.

No geral, 54% dos cientistas que publicaram artigos sobre o assunto apoiam a ideia de que um menor consumo de sal beneficia a saúde; 33% não concordam com essa ideia; e 13% não apresentam uma conclusão clara, afirmando que seus estudos foram inconclusivos.

Esse resumo foi obtido por David Johns (Escola Mailman de Saúde Pública), Ludovic Trinquart (Universidade de Colúmbia) e Sandro Galea (Universidade de Boston), que revisaram sistematicamente 269 estudos científicos sobre o sal na dieta publicados entre 1979 e 2014.

Contra e a favor

Cada estudo individual foi classificado como apoiador ou refutador da ligação entre uma menor ingestão de sódio e taxas mais baixas de doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e morte.

Chamou a atenção o fato de que mais da metade dos artigos científicos sobre o tema foram publicados a partir de 2011, sugerindo um nível crescente de interesse na questão, ainda que isso não tenha aumentado o nível de consenso entre os cientistas e médicos participantes dos diversos estudos.

E parece que os cientistas também não gostam muito de ler artigos de seus colegas que não concordam com eles: as equipes de cada um dos dois lados da questão geralmente citam mais artigos que têm uma conclusão semelhante às suas do que artigos que chegam a uma conclusão diferente.

Ciência do Sal tem pouco de científico
Apesar da polarização, existem alguns estudos que defendem que não se deve comer sal demais e nem de menos.
[Imagem: NUI Galway]

Times científicos

Outro fator que chamou a atenção é que há um pequeno número de artigos científicos que "dominam a literatura", dizem os pesquisadores, salientando que há igualmente dois grupos de artigos influentes, a favor e contra a hipótese do sal.

"Há dois corpos quase distintos de cultura científica - um apoiando e outro se opondo à alegação de que a redução na ingestão de sal entre a população vai melhorar os resultados clínicos," escreveram os autores da análise.

"Cada um é guiado por alguns autores prolíficos que tendem a citar outros pesquisadores que compartilham seu ponto de vista, com pouca colaboração aparente entre os dois lados," acrescentam.

Influência sobre as políticas de saúde

Dessa forma, talvez não se possa dizer exatamente que o "debate científico" sobre o sal continue, já que não parece haver realmente um debate, mas apenas dois times reforçando as opiniões de seus membros.

Ainda assim, criticam os autores da análise, autoridades de saúde pública, desde o nível local até o nível global, têm promulgado políticas para reduzir o consumo de sal - a Organização Mundial de Saúde recomenda limitar a ingestão de sal.

"Os tomadores de decisão muitas vezes têm de escolher um curso de ação em face de evidências conflitantes, incertas. Tanto o uso indevido da incerteza, quanto o exagero da certeza, podem moldar os resultados dos processos de tomada de decisões de saúde pública," concluem eles no artigo publicado no International Journal of Epidemiology.


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