Cientistas criam quimeras de humanos e porcos

Cientistas criam quimeras de humanos e porcos
A criação de híbridos de animais e humanos vem acendendo todos os sinais de alerta no tocante à ética científica.
[Imagem: AMS]

Quimeras genéticas

Cientistas nos Estados Unidos estão fazendo experimentos para gerar órgãos humanos em porcos.

Em experimentos na Universidade da Califórnia em Davis, os cientistas estão injetando células-tronco humanas em embriões de suínos para produzir embriões híbridos apelidados de "quimeras".

O termo é uma referência à mitologia grega, em que as quimeras são monstros híbridos de diversos animais - parte leão, cabra ou serpente, por exemplo.

Porém, os pesquisadores esperam que as suas "quimeras" humano-suínas tenham a aparência e o comportamento normais de porcos, exceto pelo fato de que terão um órgão composto de células humanas.

A alegação da equipe é que suas pesquisas têm por objetivo solucionar a falta de órgãos humanos para transplante. Contudo, se a rejeição de órgãos é um problema mesmo quando os órgãos são doados por outros humanos, é impossível avaliar os problemas que transplantes de animais para humanos poderão gerar.

Nicho genético

A criação das quimeras ocorre em duas partes. No experimento divulgado agora, os cientistas removem o gene de um embrião recém-fertilizado de porco que levaria ao desenvolvimento do pâncreas no feto. Isso é feito aplicando-se uma técnica de edição genética chamada CRISPR. O resultado é um "nicho genético" na estrutura genética do embrião animal.

Células-tronco humanas (iPS), capazes de se desenvolver como qualquer tecido no corpo, são então injetadas no embrião suíno. Os cientistas esperam que as células-tronco humanas ocupem o nicho genético no embrião de porco e gerem um pâncreas com tecido humano no feto.

Os fetos se desenvolvem em fêmeas de porco durante 28 dias - o período completo de gestação é cerca de 114 dias. Após isso, as gravidezes são interrompidas e o tecido é removido para análise.

Cientistas criam quimeras de humanos e porcos
As células-tronco humanas são injetadas em embriões de porco - as células podem ser vistas no tubo à direita.
[Imagem: Pablo Ross/UC Davis]

Animais "humanizados"

A pesquisa é polêmica. No ano passado, a principal agência norte-americana de pesquisa médica, dos Institutos Nacionais de Saúde, suspendeu o financiamento de experimentos semelhantes até que surjam mais informações sobre suas potenciais implicações.

A principal preocupação é que as células humanas migrem para o cérebro dos porcos ao longo do processo, tornando-os, de certa forma, "mais humanos". Outras equipes nos EUA estão trabalhando com quimeras híbridas de humano e suíno, mas todas afirmam que não permitem o desenvolvimento do feto até o fim.

"Achamos que existe um potencial muito pequeno de crescimento de um cérebro humano", reconhece o geneticista Pablo Ross. "Mas isto é algo que investigaremos."

Walter Low, da Universidade de Minnesota, também envolvido no desenvolvimento de quimeras, diz que sua equipe está monitorando os efeitos da pesquisa no cérebro dos porcos: "Com cada órgão, vamos olhar para o que está acontecendo no cérebro, e se estiver parecendo muito humano, não deixaremos os fetos nascerem."

Xenoenxertos

A edição genética, imbuída nas novas técnicas, está revitalizando a pesquisa dos chamados xenoenxertos e o conceito de usar animais para produzir órgãos humanos.

Na década de 1990, muitos esperavam que porcos geneticamente modificados pudessem suprir a demanda por órgãos humanos para transplante. Acreditava-se que os transplantes entre espécies fossem se tornar uma realidade em pouco tempo.

Contudo, todos os testes clínicos foram interrompidos por temores de que os humanos fossem infectados por vírus animais.


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