Como lesões cerebrais levam ao altruísmo ou ao egoísmo

Como lesões cerebrais leva ao altruísmo ou ao egoísmo
Altruísmo e egoísmo são afetados por partes diferentes do cérebro.
[Imagem: Jorge Moll et al. - 10.1093/brain/awy064]

Neurologia do Altruísmo

É bem documentado o fato de que as lesões cerebrais - ocasionadas, por exemplo, por traumatismos de guerra - podem interferir no comportamento. Ocorre que os efeitos podem ser diametralmente opostos, com a mudança de comportamento podendo tomar a direção do altruísmo ou do egoísmo, do pacifismo ou da violência, de acordo com o local da lesão.

Mas é extremamente difícil mapear com exatidão a relação entre as regiões lesadas e as mudanças de comportamento, principalmente no que diz respeito aos comportamentos caracteristicamente humanos.

A equipe do professor Ricardo de Oliveira Souza, neurologista do Instituto D'Or, propôs-se a melhorar esse conhecimento estudando homens que lutaram na Guerra do Vietnã, nos anos 1960. Foram incluídos na pesquisa 94 homens com lesões cerebrais penetrantes e 28 veteranos sem lesão cerebral, que compuseram o grupo controle.

Todos os participantes foram submetidos à tomografia computadorizada, método não invasivo que permite mapeamento detalhado das lesões cerebrais, e realizaram um teste de decisões altruístas a fim de captar traços de sua moralidade e senso de justiça. Nesse teste, cada participante recebia certa quantia em dinheiro e era apresentado a 30 organizações envolvidas em causas sociais, como direito ao aborto, uso de energia nuclear e controle de armas. Diante de cada organização, a pessoa deveria decidir se usava US$ 1 para ajudar a instituição (recompensa), se retirava US$ 1 da organização (punição) ou se guardava o dinheiro para si. Tanto para doar como para retirar dinheiro das instituições, os participantes perdiam uma quantia equivalente em seu próprio montante.

Mapa cerebral do altruísmo

"Nossos resultados mostram que existem dois grandes circuitos cerebrais diferentes atuantes quando nos deparamos com situações em que é necessário tomar uma decisão moral: um dos circuitos pune, o outro doa," disse o professor Souza.

Os dados mostraram uma relação entre o altruísmo e o padrão de lesão cerebral. Os veteranos que mais realizaram ações de punição possuíam lesões bilaterais no córtex pré-frontal dorsomedial. Por outro lado, os que menos puniam possuíam lesões cerebrais localizadas no córtex temporo-insular esquerdo e perisylviano direito.

As decisões de doação, por sua vez, se associaram a lesões em outras áreas do cérebro. Os veteranos que mais doaram possuíam lesões bilaterais do córtex parietal dorsomedial. Em contraste, a diminuição de doações foi associada a lesões posteriores do hemisfério direito, em especial do sulco temporal superior e do giro temporal médio.

Estudos anteriores já haviam mostrado a importância dessas mesmas áreas cerebrais para determinar o senso de intencionalidade, moralidade e justiça em relação a uma pessoa ou grupo social. Segundo os autores, os novos resultados reforçam a noção de que decisões altruístas se originam de processos cognitivos complexos que entram em ação quando somos levados a tomar uma decisão moral; por exemplo, se somos a favor ou contra o desarmamento da população civil, o aborto, a energia nuclear etc.

"Esperamos que evidências como esta, sobre os mecanismos cerebrais do altruísmo e comportamentos afins, possam promover os tipos de relações sociais positivas desejadas por famílias de pacientes em reabilitação por diferentes formas de lesões cerebrais traumáticas ou por doenças neurodegenerativas", disse o neurocientista Jordan Grafman, coautor do trabalho.

No futuro, a equipe pretende realizar testes com pessoas mais jovens e com mulheres para entender se existem diferenças de sexo ou idade nos circuitos cerebrais da moralidade.


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