Cresce número de hipertensos resistentes aos medicamentos

Cresce número de hipertensos resistentes aos medicamentos
Há cerca de 30 anos a hipertensão resistente ocorria entre 1% e 3% da população e, hoje, atinge entre 15% e 17% dos portadores.
[Imagem: Jornal da Unicamp]

Hipertensão resistente

O acentuado crescimento da obesidade nas últimas duas décadas, sobretudo em crianças e adolescentes, fez surgir uma nova categoria de pessoas hipertensas, aquelas em que a doença resiste a regredir mesmo que medicadas com até três diferentes hipertensivos.

Esses pacientes de alto risco são o alvo de estudos desenvolvidos na Unicamp, no âmbito do Laboratório de Farmacologia Cardiovascular da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e do Ambulatório de Hipertensão Resistente do Hospital de Clínicas (HC).

Técnicas inovadoras têm permitido identificar cada vez mais precocemente alterações vasculares decorrentes da hipertensão arterial e relacionados às causas de morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares, como infarto e derrame cerebral.

Os diagnósticos podem alertar para a necessidade de medidas preventivas antes que lesões se instalem e comprometam o sistema vascular de maneira irreversível, e contribuem para avaliar a eficácia de medicamentos controladores.

Razões da obesidade nos jovens

As razões da obesidade nas faixas etárias mais jovens são sobejamente conhecidas: além de predisposição motivada por herança genética, as causas incluem o sedentarismo e os hábitos alimentares inadequados, baseados em ingestão excessiva de carboidratos e gordura.

O problema se agrava com a incidência cada vez maior de pressão arterial alta na população obesa - fenômeno que passou a ser diagnosticado com maior frequência em crianças e adolescentes -, devido a um desequilíbrio entre os hormônios produzidos pelos adipócitos (células do tecido adiposo), entre os quais se destaca a leptina, e aqueles responsáveis por regular a pressão arterial, como a angiotensina II.

Doença duradoura

Portanto, não só a convivência das pessoas com a hipertensão é mais prematura do que se pensava, como também, devido ao aumento da expectativa de vida, poderão carregar a doença por muito mais tempo.

O quadro aponta para a importância de métodos diagnósticos capazes de avaliar precocemente riscos advindos desse maior convívio com a doença e para a necessidade de antihipertensivos cada vez mais eficazes, até porque vem aumentando significativamente o número de hipertensos resistentes às drogas atualmente disponíveis.

Aumento da resistência aos medicamentos

Há cerca de 30 anos, a hipertensão resistente ocorria entre 1% e 3% da população de hipertensos; hoje, entre 15% e 17% dos portadores de pressão alta apresentam hipertensão de difícil controle, revela o médico cardiologista e farmacologista Heitor Moreno Junior, do Departamento de Clínica Médica da FCM e coordenador dos estudos na Unicamp.

"Tínhamos historicamente menor número de hipertensos resistentes porque o índice de massa corporal era menor na população. Nos últimos vinte anos, concomitantemente com o aumento da população de obesos, cresceu também o número de pessoas com níveis de pressão arterial mais difíceis de serem controlados. Estima-se um preocupante aumento desse contingente, já que a tendência é de se viver mais tempo com a hipertensão", observa o especialista.

Novos hipertensivos

Uma das frentes das pesquisas conduzidos na Universidade é, conforme explica Moreno, o estudo de novos hipertensivos ou de associações e combinações sinérgicas entre fármacos dotados de diferentes mecanismos de ação sobre a hipertensão, capazes de melhorar a eficiência do tratamento de pacientes resistentes.

Outra frente é a aplicação de métodos avançados de diagnósticos para identificar e possibilitar a prevenção de riscos de mortalidade cardiovascular em hipertensos, como a aterosclerose, doença crônico-degenerativa que leva à obstrução das artérias (vasos que levam o sangue para os tecidos) devido ao acúmulo de lipídios, como o colesterol, em suas paredes. A aterosclerose pode causar danos irreversíveis a órgãos vitais e até mesmo levar à morte.

Ultrassom das carótidas

Um dos exames é o ultrassom das carótidas (artérias localizadas no pescoço e responsáveis por transportar o sangue do coração ao cérebro) para a avaliação da estrutura do endotélio, tecido que reveste a parede dos vasos sanguíneos.

O exame permite observar microscópicas alterações na espessura da parede vascular resultantes do acúmulo de ateromas (placas de gordura). Os dados obtidos possibilitam estabelecer o tempo de instalação do processo de espessamento e prognosticar sua eventual evolução na direção da aterosclerose.

Velocidade da onda de pulso

Outra técnica consiste na análise da velocidade da onda de pulso. Quando o sangue é ejetado pelo coração, há um impacto na parede da artéria aorta que se propaga por todo o sistema arterial. A velocidade de propagação dessa pulsação pode ser mensurada e eventuais alterações de onda são consideradas marcadores de risco cardiovascular precoce. Se o vaso perder a elasticidade e tornar-se mais rígido devido à deposição de ateromas em seu interior, haverá importantes alterações na velocidade, e essa manifestação pode sinalizar uma forte propensão para a aterosclerose.

Efeitos do envelhecimento

Alterações vasculares em geral estão associadas ao processo degenerativo do organismo decorrente da senilidade. Porém determinadas doenças, além da hipertensão arterial, representam um alto fator de risco para o desenvolvimento precoce de lesões ateroscleróticas, como a intolerância à glicose ou o diabetes, a obesidade e a dislipidemia, que é a denominação do aumento anormal da taxa de lipídios no sangue. Batizado de síndrome metabólica, o conjunto desses achados tem respondido por elevados índices de morbidade e de mortalidade cardiovascular em diferentes faixas etárias.

"Nossos estudos são orientados, portanto, por uma dupla preocupação: a primeira é identificar mais precocemente o risco de mortalidade por doença cardiovascular e a segunda é poder proporcionar aos pacientes medicamentos com o poder de evitar a progressão acelerada das complicações cardíacas e vasculares", acentua Heitor.

Aterosclerose

O grupo de pesquisa que ele coordena vem avaliando o efeito da terapêutica com diversos fármacos sobre essas alterações precoces da aterosclerose em um universo de pacientes de alto risco que não é pequeno.

"Se a hipertensão resistente atendida nos postos da rede pública de saúde e nos consultórios manifesta-se, proporcionalmente, segundo a média estatística de cinco pacientes para cada uma centena de hipertensos, em nosso ambulatório o número chega a 30 portadores refratários, levando-se em consideração o nível terciário do HC", salienta o cardiologista.

Exames de ponta

A Unicamp, relata ele, adota os avançados métodos diagnósticos desde 2001 e foi precursora da implantação das técnicas no Brasil, apenas dois anos após a sua adoção nos Estados Unidos.

O alto custo dos equipamentos ainda torna proibitiva sua utilização em larga escala em clínicas e postos da rede básica de saúde. Nestes, contudo, destaca Heitor, é necessário se dedicar cada vez mais atenção à identificação e prevenção precoces de problemas cardiovasculares, valendo-se de exames clínicos e de sangue simples e rotineiros, porém capazes de auxiliar na verificação do risco vascular, como o cálculo do índice de massa corporal (IMC), a medida da pressão arterial e os exames laboratoriais para a determinação do colesterol, triglicérides e glicose no sangue.

Os estudos conjuntos do Laboratório de Farmacologia Cardiovascular e do Ambulatório de Hipertensão Resistente contam com a participação de doze alunos da FCM e financiamento das principais agências de fomento. As pesquisas já resultaram em trabalhos de iniciação científica, dissertações de mestrado e teses de doutorado, as quais foram publicadas em periódicos nacionais e internacionais.


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