Falta criatividade para criação de novos medicamentos, diz cientista

Apagão de criatividade

Em 1928, o inglês Alexander Fleming (1881-1955) descobriu acidentalmente em uma placa de cultura esquecida em seu laboratório um fungo, o Penicillium notatum, que exterminava bactérias patogênicas como o Staphylococcus aureus.

A descoberta iniciou a chamada "era dos antibióticos", com a penicilina sendo um dos mais importantes fármacos de todos os tempos, utilizada até hoje no tratamento de infecções.

Passados exatos 83 anos da descoberta histórica, porém, as indústrias farmacêuticas atravessam uma crise de criatividade no desenvolvimento de moléculas bioativas inovadoras, que possam ser utilizadas como fármacos eficazes para o tratamento de novas e de antigas doenças.

A análise foi feita por Eliezer Jesus de Lacerda Barreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante o ciclo de conferências do Ano Internacional da Química 2011, tratando sobre "Química medicinal: desafios e perspectivas".

Segundo ele, em 2010 as indústrias farmacêuticas lançaram 15 moléculas bioativas contra 39 introduzidas no mercado em 1997.

"Em função dessa crise de criatividade, as empresas farmacêuticas, que faturaram US$ 850 bilhões em 2010 em todo o mundo e investiram 10% desse valor em pesquisa, desenvolvimento e inovação, voltam seus olhares para as moléculas desenvolvidas nas universidades, que podem ser mais capazes de inovar em química medicinal do que os bem equipados laboratórios industriais", disse.

Receptor biológico

Para o professor Eliezer, as moléculas bioativas mais inovadoras surgidas nas últimas décadas foram desenvolvidas nos laboratórios das indústrias farmacêuticas, mas com base no conhecimento produzido em universidades e centros de pesquisa.

O exemplo mais emblemático, de acordo com o cientista, é do cloridato de propanolol.

O primeiro betabloqueador seguro para uso humano, que revolucionou o tratamento da hipertensão, foi desenvolvido pelo escocês James Black no fim nos anos 1950 com base na aplicação de conhecimentos formulados pelos alemães Hermann Emil Fischer e Paul Ehrlich.

Fischer e Ehrlich foram pioneiros na formulação da ideia de que cada molécula tinha um biorreceptor - um alvo específico para uma doença. Com base nisso, Black desenvolveu uma molécula quimicamente simples, mas eficiente no tratamento de doenças coronárias e seus sintomas.

"A descoberta dessa molécula por Black estimulou outros cientistas a ampliar a família de betabloqueadores. E, hoje, praticamente todas as empresas farmacêuticas presentes no mercado mundial têm um betabloqueador em seu portfólio de medicamentos", disse Eliezer.

Além do propanolol, o professor da UFRJ citou como exemplos de inovação terapêuticas a cimetidina, também descoberta por Black em 1960 e que permitiu o controle da úlcera péptica; a sinvastatina, lançada em 1979 e voltada para redução dos níveis de colesterol; e o captropil, utilizado para o tratamento de hipertensão arterial, que foi desenvolvido com base em pesquisas brasileiras sobre peptídeos presentes no veneno da jararaca.

Compostos naturais e sintéticos

"Dos 1.184 novos compostos químicos que entraram em fase de testes clínicos e se tornaram medicamentos nos últimos anos, 52% foram provenientes de produtos naturais", destacou Luiz Carlos Dias, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que também participou do evento.

"Um deles é a atorvastatina, princípio ativo do medicamento mais vendido no mundo e o mais potente para a redução dos níveis de colesterol plasmático: o Lipitor," lembrou.

Lançado em 1985, o composto foi desenvolvido a partir de um produto natural, o fungo compactina. Por meio de modificações estruturais na molécula do produto natural utilizando ferramentas e subsídios da química medicinal, o pesquisador Bruce Roth, da indústria farmacêutica Pfizer, conseguiu criar uma estrutura da molécula com efeito terapêutico bem mais eficiente.

A patente da molécula, que é considerada o ácido carboxílico mais valioso do planeta, faturando US$ 13 bilhões em vendas, expira este ano no mercado norte-americano.

Indústria famoquímica brasileira

De olho nessa oportunidade, Luiz Carlos e outros pesquisadores de seu grupo de pesquisa em síntese de produtos naturais bioativos no IQ, da Unicamp, conseguiram sintetizar no ano passado a molécula, por uma rota inédita, em uma escala de cerca de 1 grama.

"Conseguimos sintetizar essa molécula, que tem uma estrutura relativamente complexa, por uma nova rota que envolveu inovações incrementais e é diferente das que até então vinham sendo empregadas e descritas na literatura", afirmou.

De acordo com estimativas do setor farmacêutico, mais de 90% dos princípios ativos utilizados hoje no Brasil para a produção de medicamentos genéricos são provenientes de países como a Índia e China.

"A indústria farmoquímica brasileira usa esses insumos, muitas vezes impuros, fazem purificações, pequenas modificações estruturais, encapsulam e colocam no mercado. É assim que são produzidos os medicamentos genéricos no país hoje. E nós temos competência para sintetizar o princípio ativo não só de uma molécula como a atorvastatina, mas de outras moléculas mais simples e com impactos no Sistema Único de Saúde e no programa Farmácia Popular. E isso precisa ser incentivado", destacou Luiz Carlos.


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