Estudantes criam na escola remédio que indústria aumentou em 5.000%

Estudantes criam na escola remédio que indústria aumentou em 5.000%
Adolescentes australianos conseguiram sintetizar 3,7 gramas do princípio ativo do Daraprim por US$ 20.
[Imagem: Alamy]

Abuso

Em agosto de 2015, a empresa farmacêutica Turing Pharmaceuticals elevou em mais de 5.000% o preço de um medicamento para pessoas com sistema imunológico debilitado.

Segundo as informações divulgadas na época, o aumento de US$ 13,50 (R$ 46) para US$ 750 (R$ 2550) por comprimido do Daraprim, que custa US$ 1 para ser produzido, se justificaria por ser um produto altamente especializado e com uma margem de lucro pequena. Em países como a Austrália e o Reino Unido, a droga é vendida por US$ 1,50 por comprimido.

O presidente da empresa farmacêutica, Martin Shkreli, recebeu vários apelidos pouco elogiosos após a medida, incluindo "símbolo de tudo de ruim que existe no capitalismo", "sociopata moralmente falido" e "o homem mais odiado do país", por exemplo.

Comprovação do abuso

Nesta semana, um grupo de adolescentes australianos provou que Shkreli não foi totalmente honesto - algo considerado por alguns médicos como "humilhante" para o empresário.

Os estudantes de uma escola de Sydney, todos com 17 anos, conseguiram sintetizar 3,7 gramas do princípio ativo do Darapim, a pirimetamina, por apenas US$ 20, como parte de um experimento no laboratório na escola.

Nos EUA, a mesma quantidade de pirimetamina custaria hoje mais de US$ 110 mil.

"Se estudantes conseguiram sintetizar a substância a custo tão baixo, não há desculpa para que se cobre tanto dinheiro pelo medicamento", diz Alice Williamson, química da Universidade de Sydney que orientou o trabalho dos estudantes.

Desenvolvido nos anos 1950, o Daraprim é usado para tratar a toxoplasmose, uma enfermidade infecciosa causada por um protozoário encontrado nas fezes de felinos e que afeta pacientes com sistema imunológico debilitado, como quem sofre de Aids e malária, e pacientes que se submetem à quimioterapia, além de algumas gestantes. É uma doença potencialmente fatal.

Críticas

A decisão de Shkreli de aumentar o preço da droga levou a uma onda de fortes críticas ao redor do mundo. A Sociedade para Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, a Associação de Medicamentos para HIV e outros órgãos da área de saúde nos EUA publicaram uma carta aberta em que exigiam da Turing que reconsiderasse o aumento.

"O custo é injustificável para pacientes vulneráveis que precisam do medicamento e insustentável para o sistema de saúde", disse o grupo no documento.

Shkreli defendeu a política de preços, dizendo que o valor de fabricação não incluía outros custos, como marketing e distribuição, que teriam aumentado drasticamente nos últimos anos. E que a receita obtida seria usada em pesquisas de novos tratamentos para a toxoplasmose.

A Turing acabou cedendo e baixou o valor para US$ 375, "um nível mais acessível e que permite à companhia ter lucro, ainda que pequeno". Só que o preço ainda é 2.500% maior que antes do aumento.

O empresário norte-americano desdenhou dos resultados obtidos pelos estudantes, dizendo que "é fácil produzir uma pequena quantidade" da droga. "Eu deveria usar escolas para fazer meus medicamentos," escreveu ele em sua conta no Twitter. "Para que comprar equipamentos, se posso usar os laboratórios de ciências de graça. E os professores que ajudaram as crianças trabalharam de graça, certo?", ironizou.


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