Fiocruz obtém patente por método de desenvolvimento de vacinas

No final de 2012, um estudo publicado na revista científica Nature comprovou que uma abordagem inovadora poderia ser utilizada para buscar uma vacina contra a AIDS.

Por trás da descoberta, estava um método desenvolvido na Fiocruz para elaborar imunizantes contra diversas doenças utilizando como base a vacina para a febre amarela.

Recém-patenteada nos Estados Unidos, esta tecnologia - criada pelos pesquisadores Myrna Bonaldo, (Instituto Oswaldo Cruz) e Ricardo Galler (Bio-Manguinhos) - agora é reconhecidamente uma invenção brasileira, com propriedade intelectual protegida pelo United States Patent and Trademark Office (UPTO).

A patente foi concedida à Fiocruz após quase dez anos de tramitação. Este prazo é avaliado como normal por Myrna, que considera o reconhecimento da invenção uma conquista da ciência brasileira.

"O processo é naturalmente demorado. Nós fizemos o depósito da patente no Brasil no final de 2005 e, em seguida, solicitamos a proteção da inovação no próprio Brasil, nos Estados Unidos e na União Europeia. O registro norte-americano foi o primeiro concedido. Além dos benefícios práticos, a patente é um reconhecimento de que a Fiocruz tem capacidade técnica e de inovação nesta abordagem", afirma a pesquisadora.

Após a concessão da patente, os interessados em utilizar a metodologia desenvolvida na Fiocruz para produzir vacinas precisarão de autorização da instituição, que pode ser remunerada por isso. O prazo de proteção da invenção é de 20 anos.

Vírus recombinantes

Fiocruz obtém patente por método inédito de desenvolvimento de vacinas
Para prevenir a infecção, utilizam-se vírus vivos atenuados, capazes de se multiplicar no organismo do paciente em quantidade limitada, que não é suficiente para provocar a doença.
[Imagem: Jefferson Mendes]

Aplicada desde 1937, a vacina contra a febre amarela está na base da metodologia patenteada.

Para prevenir a infecção, este imunizante utiliza vírus vivos atenuados, capazes de se multiplicar no organismo do paciente em quantidade limitada, que não é suficiente para provocar a doença. Assim, as células de defesa podem aprender a reconhecer o patógeno, ficando prontas para responder rapidamente em caso de uma possível infecção.

Considerando a segurança e a eficácia desta vacina, os pesquisadores da Fiocruz decidiram utilizar os vírus atenuados da febre amarela para prevenir outras condições.

Através de engenharia genética, eles desenvolveram um método para inserir genes de outros micro-organismos no material genético destes vírus. O resultado é a criação dos chamados "vírus recombinantes", que podem "ensinar" as células de defesa dos pacientes a reconhecer outras infecções.

Vacina contra AIDS

A pesquisa sobre vacinas contra a AIDS é um bom exemplo de funcionamento da estratégia. O trabalho é liderado pelo cientista David Watkins, da Universidade de Miami, e realizado em parceria com pesquisadores brasileiros.

Os testes divulgados na revista Nature foram realizados nos Estados Unidos, com macacos, que são considerados o melhor modelo de estudo da doença. Para produzir os imunizantes, alguns genes do vírus SIV (que provoca nos primatas uma infecção semelhante à causada pelo HIV em humanos) foram inseridos no material genético dos vírus atenuados da febre amarela.

Quando a vacina foi aplicada, estes vírus recombinantes se multiplicaram no organismo dos animais, apresentando ao sistema imune deles tanto proteínas típicas dos vírus da febre amarela, como do SIV. Com isso, as células de defesa aprenderam a reconhecer este patógeno, passando a atuar de forma mais eficiente contra a doença.

De acordo com Myrna, a metodologia pode ser usada contra diversas doenças. No momento, estudos no Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus são desenvolvidos com vírus recombinantes com genes do parasito Trypanosoma cruzi, causador da Doença de Chagas.


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