Indústria nacional é incapaz de produzir o Lipitor brasileiro

Complexidade

Nove meses depois de anunciada a descoberta, por pesquisadores brasileiros, de uma nova rota química para a síntese da atorvastatina cálcica - o princípio ativo do remédio para colesterol Lipitor, da Pfizer - a indústria farmacêutica local ainda não está pronta para pôr a versão nacional do genérico no mercado.

"Nossa rota, de onze etapas, é complexa demais para a capacidade da indústria farmacêutica nacional", explicou Luiz Carlos Dias, do Instituto de Química da Unicamp, um dos descobridores do processo inédito para a produção da droga.

O processo desenvolvido por Dias e Adriano Vieira, também do Instituto de Química da Unicamp, é mais eficiente e barato que duas rotas já usadas comercialmente para a obtenção da molécula da atorvastatina: a original da Pfizer, patenteada em 1989, e uma alternativa desenvolvida por uma indústria indiana, a Rambaxy, em 2009.

Em 2009, o Lipitor foi o medicamento mais vendido no mundo, gerando receita global de US$ 13 bilhões. A patente da molécula caiu em junho de 2011. Desde então, é legalmente possível produzir genéricos da atorvastatina, e vários laboratórios já têm suas versões disponíveis no mercado nacional. Mas nenhuma delas se vale da rota brasileira.

Rota brasileira

Dias disse que um fármaco criado a partir da rota brasileira "talvez nunca venha a ser produzido", mas referiu-se ao trabalho de criação do processo como "uma quebra de paradigma". "Isso mostrou que temos a competência científica. Se fomos capazes de fazer a atorvastatina, isso significa que também podemos fazer outras moléculas, mais simples, que estão ao alcance da indústria e também são importantes para a saúde pública".

De acordo com o pesquisador, a dificuldade na produção da atorvastatina no Brasil está no elevado número de etapas da rota encontrada - onze. "Uma coisa é fazer alguns poucos gramas num laboratório acadêmico, outra é implementar em escala industrial", explicou. "Uma solução seria surgirem pequenas empresas, start-ups, que fizessem, digamos, as seis primeiras etapas, e entregassem o produto para a grande indústria completar, embalar e vender", sugeriu.

Outras alternativas envolveriam algum tipo de ação do Estado, por meio de subvenções ou parcerias público-privadas. "Também poderia haver um melhor controle alfandegário", disse ele, atribuindo a fraqueza da indústria nacional de produtos farmacêuticos intermediários às facilidades de importação de insumos de países como Índia e China. "Cerca de 90% dos genéricos consumidos no Brasil são feitos a partir de matéria-prima importada".

Dias não considera, no entanto, a possibilidade de licenciar a rota descoberta na Unicamp para produção da atorvastatina para algum laboratório fora do país. "Se eu puser isso na mão de uma multinacional, eles fazem em dois tempos", declarou. "Mas o objetivo do projeto nunca foi esse. Sempre teve em vista os programas brasileiros de genéricos e de saúde pública".

Da inovação ao produto

O pesquisador Sérgio Falomir Peraza, da indústria Nortec Química, que assim como os químicos da Unicamp foi homenageado no 5º EniFarMed por ter criado uma inovação tecnológica - no caso, uma modificação na síntese de um remédio anticonvulsivo, a fosfenoteína dissódica - explica que "não existe processo industrial sem um mercado".

"O acadêmico me dá a inovação, mas poucas pessoas no Brasil conseguem transformar a inovação em produto de indústria. A indústria tem de fazer o produto chegar ao mercado".

Diante da questão da atorvastatina - molécula para a qual o mercado já está estabelecido - Peraza reitera a explicação de Dias: "Nós não temos uma indústria de intermediários. Temos de comprar os intermediários da Índia e China", declarou, acrescentando que as importações inibem possíveis iniciativas nacionais.

Representantes do governo federal presentes ao evento manifestaram preocupação com a questão da dependência brasileira de insumos farmacêuticos importados. Zich Moysés, da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, disse, durante mesa redonda sobre compras governamentais e parcerias público-privadas, que "ter a matéria-prima produzida aqui é fundamental". "Não é só ter produção: é para ter a tecnologia aqui também", afirmou.

Tecnologia e inovação

A questão da importação de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), matéria-prima para a indústria de genéricos, e o impacto dessas importações sobre o fabricante nacional permearam diversas mesas e debates do evento.

"Ou se resolve o problema da indústria de genéricos não consumir dos fabricantes farmoquímicos nacionais, ou nenhuma ação vai adiantar", queixou-se Jean Peter, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina e suas Especialidades (Abifina), durante mesa sobre as perspectivas para os farmoquímicos nacionais.

Dante Alario Júnior, principal executivo científico da Biolab Famacêutica, declarou, durante a sessão de abertura do EniFarMed, que "não dá para competir com China e Índia" na questão dos fármacos fora de patente, a menos que haja alguma inovação envolvida no processo. "Só tem um caminho para a síntese, que não está sendo explorado, que é fazer inovação em síntese", disse ele. "Eu nunca montaria uma indústria, e já fiz isso, que faz fármaco que está fora de patente. Eu fiz uma vez, mas não faço a segunda". Síntese, no caso, é o nome dado ao processo químico de obter compostos mais complexos a partir de ingredientes mais simples.

"Eu só faria alguma coisa", prosseguiu, "onde também vá fazer inovação em síntese. Vou fazer coisas que dão patente, inovações radicais que também dão patente. Esse é o único caminho que ainda existe para a indústria de fármaco. Se ela fizer isso, ela tem chance de fazer até fármacos fora da patente. Mas só fazer fora da patente e competir com China e Índia, desculpe, não dá".

Áreas onde o espaço para o produto nacional parece menos controverso, abordadas no 5º EniFarMed, foram a biotecnologia- com a apresentação de um fundo de investimento internacional patrocinado pelo BNDES - e os fitoterápicos. De acordo com o representante do BNDES que mediou uma mesa sobre biotecnologia, Pedro Palmeira, "existe uma janela de oportunidade" para o desenvolvimento de uma indústria nacional forte no setor.

"Existe uma oportunidade tecnológica a ser capturada pelo empresariado nacional, que é a biotecnologia", afirmou ele, citando fatores que devem estimular o desenvolvimento do setor: a capacidade de compras do governo e a disposição do BNDES para fomentar a "internalização das competências" envolvidas.


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