O sonho de ser magro sem deixar de comer

O sonho de ser magro sem restrição alimentar
Carmen Moura (direita) observa a doutoranda Gabriela Monteiro de Paula durante análise para quantificação de hormônios.
[Imagem: UFRJ]

Comer sem engordar

Seria um sonho se houvesse um medicamento que conseguisse impedir que acumulássemos gordura, mesmo comendo de tudo, sem restrições.

Devido à relação direta com a obesidade, o mecanismo de ação de um peptídeo, a neuromedina B (NB), está intrigando a pesquisadora Carmen Cabanelas de Moura, do laboratório de Endocrinologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Carmen está coordenando uma pesquisa que investiga como a interação desse peptídeo com seu receptor age no controle do peso.

"Os peptídeos, em geral, precisam se ligar a uma molécula específica, o receptor, para que possam desempenhar suas funções", explica ela. "Pelos resultados iniciais, observamos que uma modificação genética, que cesse a produção desse receptor - sua deleção -, muda a forma de acumulação de gordura."

Ingestão alimentar e peso corporal

Ainda não se sabe exatamente qual a função da NB (neuromedina B), mas, segundo a pesquisadora, sabe-se que, além de amplamente expressa no organismo humano, ela vem sendo apontada como fator importante nos mecanismos de ingestão alimentar e no controle do peso corporal.

Entretanto, os dados apresentados pelas pesquisas até o momento são discrepantes, e foi a necessidade de informações mais precisas sobre a dinâmica da NB que motivou a realização desse estudo.

"Os artigos que achamos trazem resultados antagônicos, e, por isso, sentimos necessidade de entender melhor a ação desse peptídeo no organismo", diz Carmen. "Com dados mais precisos e, portanto, mais confiáveis, podemos direcionar novos estudos que visem à prevenção da obesidade", complementa.

Ação da neuromedina B

Sendo assim, o objetivo principal do projeto, que inclui o trabalho de doutoramento da aluna Gabriela Silva Monteiro de Paula, é buscar conhecer a ação da NB no organismo.

Para isso, na metodologia usada, camundongos fêmeas normais e com deleção do receptor de NB foram mantidas em dieta normal ou dieta hiperlípidica - com alto teor de gordura para induzir a obesidade. O peso corporal e a quantidade de alimento ingerido foram mensurados três vezes por semana e após três meses de experimento, todos os animais foram sacrificados.

Carmen explica que a deleção do receptor simula a inibição da proteína, logo, o método permite avaliar o desempenho do metabolismo energético na presença e na ausência da NB.

Com fome e sem gordura

Segundo a pesquisadora, o resultado mais significativo sugere que a ausência da NB diminui o acúmulo de gordura, sem inibição da fome.

"Os animais com deleção do receptor, mantidos em dieta hiperlipídica, apresentaram ganho de apenas 19% no peso corporal, enquanto os animais normais, mantidos nas mesmas condições, tiveram ganho de 55%, quase três vezes mais", conta Carmen.

Ela afirma que a inibição da NB não age como anorexígeno, ou seja, não induz perda de apetite. "Os animais dos dois grupos - normais e com deleção de receptor -, em dietas hiperlipídicas, mantiveram a mesma proporção alimentar, ou seja, não houve perda de apetite", diz.

"Mas, por algum motivo, os animais com deleção do receptor apresentaram menor eficiência alimentar, ou seja, engordaram menos mesmo ingerindo a mesma quantidade de alimento", explica. "Isso pode sugerir que eles tenham um maior gasto energético, o que pode ser uma explicação para aqueles indivíduos, que chamamos de 'magros de ruim', que comem de tudo e não engordam", sugere a pesquisadora

Alterações metabólicas

Os animais com deleção do receptor também se mostraram resistentes a outras alterações metabólicas, causadas pelo consumo exacerbado de gorduras. Comparando os grupos mantidos em dieta hiperlipídica, Carmen conta que apenas os animais normais tiveram intolerância à glicose, situação precursora da diabetes.

Além disso, apresentaram maior concentração de leptina - hormônio produzido pela gordura, que em níveis normais promove a saciedade, mas em níveis elevados induz sua própria resistência, gerando um efeito inverso.

Para Carmen, outro resultado relevante é que a enzima hepática alfa-GPDm, cuja principal atividade está ligada ao gasto energético, se manteve em níveis normais nos animais com deleção do receptor mantidos em dieta hiperlipídica, enquanto nos animais normais, sob a mesma dieta, sua dosagem se apresentou diminuída.

"Esse resultado sugere que, de alguma maneira, a ação da NB interfere no gasto energético, o que pode ser uma explicação para a resistência à obesidade dos animais com deleção do receptor", explica a pesquisadora. Esses resultados, mesmo que preliminares, darão subsídios para direcionar novos estudos. "Agora, por exemplo, estamos buscando uma metodologia para elucidar em quais parâmetros a NB está relacionada ao gasto energético, a fim de buscar respostas para os resultados obtidos", adianta.

Inibidor do acúmulo de gordura

Hoje, a obesidade já é considerada uma epidemia mundial, origem de diversas alterações metabólicas - como hipertensão e diabetes - que aumentam o risco das complicações cardiovasculares, principal causa de morte no mundo.

Logo, entender todos os mecanismos fisiológicos relacionados à obesidade dá recursos para avanços farmacêuticos e terapêuticos que visem sua prevenção.

"Quem sabe, num futuro próximo, teremos conhecimento suficiente para produzir um composto inibidor de NB, que diminua o acúmulo de gordura", idealiza. Enquanto o sonho de se tornar "magro de ruim" não vira realidade, o melhor é manter a rotina de equilíbrio alimentar aliado à prática de exercícios físicos.


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