Médicos têm dificuldades no atendimento de crianças vítimas de abuso sexual

Médicos têm dificuldades no atendimento de crianças vítimas de abuxo sexual
O atendimento ginecológico, em especial às crianças, ainda provoca certa resistência por parte dos ginecologistas sem treinamento na área.
[Imagem: Rodrigo Carvalho]

Abuso sexual infanto-juvenil

Profissionais de saúde que cuidam de crianças e adolescentes, cada vez mais, se deparam com menores que sofreram abuso sexual. No entanto, o atendimento ginecológico, em especial às crianças, ainda provoca certa resistência por parte dos ginecologistas sem treinamento na área.

Contribuir para a melhoria desse atendimento e traçar o perfil dos ginecologistas do Estado do Rio de Janeiro frente ao abuso sexual infanto-juvenil foram os objetivos da tese de doutorado da médica Carmen Lúcia Athayde, defendida no Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).

Falta de treinamento

A autora selecionou 75 ginecologistas infanto-puberais filiados à Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia da Infância e Adolescência (Sogia), no primeiro semestre de 2006. Deste total, 38 médicos aceitaram participar da pesquisa, a maioria (76,3%) do sexo feminino.

As entrevistas foram feitas por meio de um questionário sobre o perfil do médico, o tipo de atividade exercida, a formação profissional, temas relacionados ao abuso sexual infanto-juvenil e fatores que influenciam a prática assistencial.

Entre os profissionais que aceitaram participar, foi recorrente o relato de que o primeiro contato com a assistência às vítimas de violência sexual ocorreu durante o exercício profissional, o que demonstra uma falta de conhecimento e treinamento durante a educação formal.

Médico, e não juiz

Em relação ao tipo de assistência prestada, apenas 22,6% disseram atuar no setor de emergência. O percentual dos médicos que trabalhavam em serviço de rotina nas enfermarias foi ainda menor (15,8%). A atividade mais citada foi o atendimento ambulatorial, relatada por 82,1% dos entrevistados.

Segundo Carmen, a atuação de um profissional de saúde que lida com crianças e adolescentes deve se estender para as relações familiares. "No atendimento a vítimas de agressão sexual, o relacionamento do ginecologista com as famílias é fundamental, não só para colher dados relativos aos pacientes, mas também para estabelecer parcerias no intuito de promover os cuidados necessários no tratamento dos agravos e na proteção contra episódios reincidentes", explica a pesquisadora.

Ela destaca, ainda, a importância do médico ser imparcial e evitar o tom acusatório, embora deva estar atento para a possibilidade de identificar algum membro da família ou próximo como possível agressor.

Ginecologia infanto-juvenil

A clientela infanto-juvenil constitui um segmento específico dentro do atendimento ginecológico, mas nem todos os profissionais que exercem a ginecologia estão habituados com as características especiais desta população.

"Até mesmo o exame físico nestas faixas etárias requer um conhecimento das características próprias às diversas fases do desenvolvimento e isso pode interferir de forma direta na identificação ou não de alguns sinais relativos à violência sexual", destaca Carmen.

Entre os ginecologistas participantes da pesquisa, 64,9% daqueles que suspeitaram de abuso sexual infantil referiram sempre solicitar a avaliação de outro profissional, enquanto 52,6% dos que suspeitaram de uma agressão sexual contra adolescentes tiveram igual conduta.

Quando o diagnóstico de abuso sexual contra crianças foi constituído como uma certeza, a grande maioria dos entrevistados (78,8%) relatou solicitar os préstimos de outro profissional. Dos ginecologistas que fizeram esse diagnóstico na população juvenil, uma proporção menor (64,5%) teve uma conduta semelhante.

Fenômeno universal

A violência sexual contra crianças e adolescentes é um fenômeno universal: ela não está restrita a nenhum grupo socioeconômico. Por isso, é de extrema importância o papel dos profissionais de saúde e educação na identificação precoce dos menores submetidos a esse tipo de violência e a outros maus-tratos.

Alguns sinais e sintomas são claros no diagnóstico do abuso sexual, tais como a presença de gravidez na infância ou adolescência sem história de coito consentido; e a presença de doenças sexualmente transmissíveis, lacerações, hematomas ou outras lesões genitais na ausência de história de trauma acidental que justifique o achado clínico.

Mais difíceis de diagnosticar e, talvez, mais comuns são os sinais não específicos, que incluem mudança de comportamento e queda no rendimento escolar, pois o agressor, na grande maioria das vezes, é uma pessoa próxima que procura silenciar o abuso.

Com a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), na década de 1990, surgiu a possibilidade de articulação entre sociedade e governo na mobilização para proteger menores sob o aspecto legal. No entanto, a realidade é que as notificações, apesar de terem aumentado no decorrer dos anos, não revelam o verdadeiro número de agressões: denunciar uma situação de agressão doméstica ainda não faz parte da cultura brasileira. "Uma maior integração entre as instituições de saúde e as instâncias legais, em especial o Conselho Tutelar, seria muito importante para melhorar a assistência, já que, muitas vezes, não há o retorno das notificações efetuadas e os profissionais de saúde se sentem pouco respaldados e recompensados pelo esforço no atendimento a estas vítimas", destaca Carmen.

Para melhorar a assistência prestada a crianças e adolescentes, a pesquisadora sugere a capacitação dos profissionais como medida prioritária, visando não apenas diagnosticar e tratar as repercussões físicas do abuso sexual, mas também abordar e minimizar as sequelas emocionais e sociais que fazem parte desse quadro. "O médico, ao se inserir em uma equipe que lida com a questão da violência, deve experimentar uma mudança de paradigma, na qual sua ação não se restrinja ao tratamento dos agravos físicos condicionados pela violência. No entanto, isso só é possível quando existe também uma ação eficaz dos órgãos competentes em relação à proteção de crianças e adolescentes", argumenta.

Objetividade e delicadeza

O Instituto Fernandes Figueira (IFF), unidade maternoinfantil da Fiocruz, oferece atendimento ginecológico infanto-puberal desde 1994. Segundo a médica responsável por este serviço no IFF, Ana Cristina Paixão, já foram registrados no Instituto cerca de 70 casos de abuso sexual em crianças, contados desde a criação do serviço.

O atendimento no IFF ocorre com o apoio de uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais de pediatria, psicologia médica e serviço social, entre outros. Esta equipe se reúne quinzenalmente para discutir os casos no Núcleo de Atenção a Profissionais (NAP), que foi criado para dar suporte aos profissionais que atendem crianças e adolescentes vítimas de violência.

Ana Cristina estudou a relação médico-paciente no contexto do abuso sexual de meninas, pelo olhar de médicos e cuidadoras, visando compreender melhor as dificuldades envolvidas nesse processo. A médica explica que, quando se trata de um atendimento a crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, o profissional precisa estar preparado para conduzir a consulta com o máximo de objetividade e delicadeza, sem emitir julgamentos.

"A comunicação interpessoal no atendimento médico é fundamental, assim como a capacitação continuada, não só para ginecologistas e pediatras que lidam com esse problema, mas também para todos os médicos que possam, eventualmente, receber casos de violência dentro das emergências e ambulatórios", esclarece Ana Cristina. "A sistematização do atendimento nas instituições municipais e estaduais de saúde constitui o primeiro grande passo para a melhoria do atendimento desses casos".


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