Medo de altura indica problemas no ouvido interno

Medo de altura indica problemas no ouvido interno
A pesquisadora mediu com uma plataforma ligada a um computador o equilíbrio de 70 pessoas, sendo que 31 delas tinham medo de altura.
[Imagem: Marcos Santos]

Acrofobia

Quem tem medo de altura (acrofobia) enfrenta alterações no equilíbrio postural, como indica uma pesquisa do Departamento de Neurociências e Comportamento do Instituto de Psicologia (IP) da USP. A dificuldade de se equilibrar pode originar, agravar ou manter o estado de medo em lugares altos.

A acrofobia não tem como principal causa traumas psicológicos envolvendo altura. A descoberta aponta novos tratamentos para o problema, focados nas interações do corpo e da cognição.

Origens do medo de altura

A fisioterapeuta Catarina Boffino mostrou em sua pesquisa que o sistema vestibular - região do ouvido interno que ajuda a se equilibrar e perceber a aceleração e sensação da gravidade - dos acrofóbicos não funciona bem. No dia-a-dia, eles compensam essa dificuldade se equilibrando com informações que vêm da visão ou da superfície onde estão os pés.

Como conseqüência, perdem o equilíbrio em lugares altos, onde ocorrem duas situações para os quais eles não estão preparados: necessidade de percepção visual de movimentos e interação entres os sistemas de neurônios responsáveis pela cognição e pelo controle do equilíbrio. O medo causado pela perda de controle do corpo se soma à fobia, que tem causas psicológicas. O resultado: vertigem, ansiedade e angústia que parecem desproporcionais.

Medição do equilíbrio

A pesquisadora mediu com uma plataforma ligada a um computador o equilíbrio de 70 pessoas, sendo que 31 delas tinham medo de altura. A plataforma ficava fixa ou acompanhava o balanço para frente e para trás dos pesquisados. O equilíbrio foi analisado em voluntários jogando ou não um game de computador que exigia atenção visual, com a plataforma fixa ou balançando. No jogo, tinham que manter uma bolinha dentro de um quadrado que se movia de forma imprevisível.

A experiência serviu para entender como os voluntários se equilibravam quando perdiam informações que os auxiliavam a ajustar a postura. Essas informações vêm da visão, da superfície e do sistema vestibular, e são processadas sem que as pessoas pensem, sem passar pelo córtex cerebral. O balanço da plataforma força o uso maior do sistema vestibular porque faz com que a pessoa perca as informações da superfície onde pisa exigindo uma adaptação para que a função de equilíbrio não se altere. A pesquisadora usou o game para medir se o uso da visão em atividades que envolvam cognição e equilíbrio prejudicava o equilíbrio dos acrofóbicos.

Deslocamento do centro de massa

Com a plataforma constatou-se que o centro de massa dos voluntários que tinham medo de altura mudava mais de posição do que os que não tinham a fobia - quando eles estavam jogando com a plataforma movendo-se, por exemplo, o centro de massa variava 5 centímetros quadrados (cm²), contra 2 cm² das pessoas sem acrofobia. Isso significa que o seu sistema de equilíbrio não conseguia controlar o desequilíbrio. Foi a primeira prova encontrada pela ciência de que acrofóbicos têm anormalidades no sistema que o corpo utiliza para se equilibrar. O grupo também fez menos pontos no jogo, o que sugere anormalidades na percepção visual de movimento.

Enquanto os voluntários jogavam, o aumento da exigência de atenção visual causou desequilíbrio. Por outro lado, a dificuldade de se equilibrar não interferiu no desempenho do joguinho. Isso pode indicar que o nosso organismo prioriza o sistema cognitivo e põe em segundo lugar o sistema de equilíbrio na hora de transmitir informações visuais. Nessas situações o subfuncionamento do sistema vestibular dos acrofóbicos se faz notar e eles ficam com dificuldades para ajustar a postura e se equilibrar.

Os baixos pontos no jogo mostraram que quem tem a fobia não consegue processar bem a interação entre atenção visual, o sistema de equilíbrio e o cognitivo. "Quando há uma situação de altura, em que o acrofóbico poderia utilizar a atenção para auxiliar a se equilibrar, ele não consegue", explica Catarina. "Começa a existir uma dificuldade para dividir as informações trazidas pela visão para a orientação do espaço externo, o equilíbrio e a percepção visual".

Medo, fobia e ansiedade

Medo pode ajudar o ser humano a se adaptar a novos ambientes. "Mas a fobia é um medo desproporcional, que atrapalha a adaptação", explica Catarina. "Em um lugar alto, o acrofóbico sente que está perdendo o seu equilíbrio e isso se junta com a fobia. Mas essas situações podem ser trabalhadas separadamente". Um tratamento potencial combinaria terapia psicológica e fisioterapia para superar o subfuncionamento do vestíbulo.

Acrofóbicos não experimentam medo em outras situações que exijam interação entre percepção visual do movimento e equilíbrio, como, por exemplo, ao dirigir. "Muitos acrofóbicos relatam desconfortos nessas situações e frequentemente não sabem nem dizer de onde vem a sensação, mas não há referência ao medo nem início de sinais de fobia", informa a pesquisadora. "A ciência não sabe exatamente o que ocorre no sistema vestibular. Mas a interação entre a doença psicológica e o desequilíbrio poderia ser a causa da dificuldade em controlar os sintomas da fobia e da esquiva de locais altos por estas pessoas".


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