O dilema das pesquisas médicas com financiamento coletivo

Em uma época de campanhas de financiamento coletivo para pagar por qualquer coisa, especialistas em ética advertem que a tendência de pedir a pacientes que financiem seus próprios ensaios clínicos pode fazer mais mal do que bem.

É o que alegam Danielle Wenner e Alex John Londres (Universidade Carnegie Mellon) e Jonathan Kimmelman (Universidade McGill), que publicaram um ensaio na revista científica Cell Stem Cell sobre o assunto.

Eles defendem que os ensaios clínicos financiados pelos pacientes podem parecer uma forma nova, moderna e benéfica para envolver mais pacientes nos estudos e estabelecer novas oportunidades de financiamento, mas em vez disso ameaçam o rigor científico, a relevância, a eficiência e a equidade das pesquisas médicas.

Ensaios com financiamento coletivo

"Os ensaios financiados pelos pacientes parecem ser um benefício para a ciência, atraindo recursos anteriormente inexplorados para as pesquisas," ressalta Danielle Wenner. "O problema com este modelo é que ele carece de mecanismos para garantir que a pesquisa se fundamente em boa ciência."

"Pacientes com doenças que não têm tratamentos e intervenções eficazes estão desesperados para ver o ritmo da ciência mover-se mais rapidamente ou obter acesso rápido a algo que irá ajudá-los imediatamente. Da mesma forma, pesquisadores que não podem obter financiamento dos órgãos oficiais estão se voltando para o financiamento coletivo," relata Alex London.

O trio argumenta, embora sem apresentar dados, que os ensaios financiados pelos pacientes "muitas vezes atraem pessoas que estão gravemente doentes e, portanto, dispostas a correr grandes riscos".

Eles alertam ainda que o mecanismo dá suporte a testes clínicos "claramente motivados pelo lucro, sob o pretexto de oferecer novas intervenções, algumas das quais não têm descobertas de ciência básica suficientes para apoiá-los".

Alternativas e ponderações

Para superar os riscos desse novo mecanismo, os três pesquisadores defendem que são necessários incentivos para alinhar os testes financiados pelos pacientes com a produção de pesquisas sólidas.

Eles acreditam que isso poderia ser feito por meio de políticas de grande escala que forneçam uma supervisão científica e ética para cada ensaio clínico, e pela exigência de submissão desses ensaios à revisão por pares típica dos demais estudos acadêmicos.

Outra opção é a exigência de credenciamento para instalações de saúde para incentivá-las a usar métodos adequados para a avaliação científica e a submeter-se a considerações éticas.

O assunto é polêmico e, agora que foi posto em discussão, certamente defensores do novo modelo virão a público mostrar seus argumentos e defender o novo sistema que tenta fugir do esquema acadêmico tradicional, mas que ainda não mostrou como pode se submeter a um controle de qualidade rigoroso, como exige qualquer empreendimento que lide com a saúde pública.


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