Psicobiótica: Cientistas pedem cautela aos consumidores

Psicobiótica: Cientistas pedem cautela aos consumidores
Aos poucos, a ciência começa a desvendar a estreita conexão que existe entre o cérebro e as bactérias intestinais.
[Imagem: Sarkar et al./Trends in Neurosciences 2016]

Psicobiótica

Agora que sabemos que as bactérias do intestino podem falar com o cérebro - de maneiras que afetam o nosso humor, o nosso apetite, o nosso metabolismo e até mesmo os nossos ritmos circadianos - o próximo desafio é controlar esta comunicação.

Embora já se saiba há mais de um século que as bactérias podem ter efeitos positivos sobre a saúde física, apenas nos últimos 10 a 15 anos descobriu-se que há uma conexão intestino-cérebro. Agora já se suspeita que o Parkinson pode começar no intestino e migrar para o cérebro e que as bactérias do intestino "conversam" com o sistema imunológico.

Os pesquisadores nesta área emergente já se reuniram sob uma nova bandeira, batizada de psicobiótica, que está tentando compreender como esses alimentos podem funcionar para os seres humanos e buscando estratégias para inserir no intestino bactérias que interajam com o cérebro de formas específicas, visando obter benefícios mentais e comportamentais.

Eixo bactérias-intestinos-cérebro

Os pesquisadores parecem concordar que os principais agentes responsáveis pelo eixo bactérias-intestinos-cérebro são o sistema nervoso dos intestinos, o sistema imunológico, o nervo vago e, possivelmente, hormônios e neurotransmissores intestinais.

Os primeiros experimentos na área mostram que animais de laboratório reagem bem à adição de cepas específicas de bactérias aos seus intestinos, com resultados que incluem melhorias da função imunológica, melhor reação ao estresse e até mesmo melhorias na aprendizagem e na memória.

Os estudos em humanos só foram feitos até agora com os atuais probióticos, mas mesmo neste caso os resultados são mais difíceis de interpretar porque as mudanças de humor são medidas subjetivamente, ainda que venham sendo observadas algumas mudanças fisiológicas, tais como níveis corticais reduzidos e menor nível de inflamação.

Psicobiótica: Cientistas pedem cautela aos consumidores
Pesquisadores brasileiros descobriram que um extrato de jabuticaba prolonga a vida dos probióticos.
[Imagem: Antonio Scarpinetti/Unicamp]

"Esses estudos nos dão a confiança de que as bactérias do intestino estão desempenhando um papel causal em processos biológicos muito importantes, o que nos dá a esperança de podermos explorá-los com psicobióticos. Estamos agora em busca dos mecanismos, principalmente em modelos animais. Os estudos em humanos são provocantes e emocionantes, mas, em última análise, a maioria tem pequenos tamanhos de amostra, pelo que a sua replicabilidade é difícil de estimar neste momento. Como se costuma dizer, estamos 'cautelosamente otimistas'," disse o professor Philip Burnet, da Universidade de Oxford.

Cautela

O que varia bastante entre os pesquisadores é o entusiasmo sobre o uso da psicobiótica como método terapêutico, sobretudo para os esperados tratamentos para distúrbios psicológicos ou para melhorar a cognição.

O consenso do grupo de especialistas, expresso em artigo publicado nesta semana pela revista Trends in Neurosciences, é que os consumidores de probióticos e de prebióticos devem ser céticos em relação a qualquer produto atual que possa ser anunciado como tendo efeitos psicobióticos.

Os suplementos já no mercado têm seus conhecidos efeitos positivos sobre a saúde, mas quaisquer "promessas adicionais" - quanto a pretensos efeitos terapêuticos como antidepressivos, antipsicóticos ou cognitivos -, ainda não possuem fundamento.

Segundo os especialistas, muitas perguntas ainda precisam ser respondidas sobre quais cepas de bactérias oferecem benefícios específicos, como elas operam, se anulam ou compensam outros benefícios, e como o uso desses eventuais tratamentos será regulamentado.

"A psicobiótica está muito longe de seu verdadeiro potencial translacional [passar do laboratório para o uso prático]. É um pouco chato dizer que precisamos de mais estudos, mas este é sempre o caso em qualquer disciplina acadêmica," disse o professor Burnet. "A tecnologia e os recursos já existem para essas pesquisas, de modo que estamos entusiasmados, mas o entusiasmo precisa ser temperado e canalizado para responder às questões-chave sobre os mecanismos [envolvidos]."


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