Aparelho auditivo pode ser ajustado pela internet

Teleaudiologia: aparelho auditivo é ajustado pela internet
Cientistas da USP demonstraram a viabilidade de fazer o ajuste dos aparelhos auditivos à distância, utilizando recursos comuns da internet, como o Skype.
[Imagem: Ag.USP]

Inovações em aparelhos auditivos

Recentemente, pesquisadores da USP criaram um aparelho auditivo digital de baixo custo, lançando um conceito de "equipamento genérico" que poderá ser estendido a marcapassos, desfibriladores, bombas de infusão e equipamentos de diagnóstico, como audiômetros.

Agora, os cientistas da Faculdade de Medicina da USP demonstraram a viabilidade de fazer o ajuste dos aparelhos auditivos à distância, utilizando recursos comuns da internet, como o Skype, programa gratuito de chamadas de áudio e vídeo.

Teleaudiologia

O procedimento, que se enquadra dentro da chamada Telemedicina, envolveu três pacientes que estavam em Pouso Alegre (Minas Gerais), no Instituto Sul Mineiro de Otorrinolaringologia (ISMO).

Uma fonoaudióloga em São Paulo, no Hospital das Clínicas da USP, transmitiu os procedimentos de adaptação dos aparelhos auditivos para três fonoaudiólogas que acompanhavam os pacientes na cidade mineira, a 200 quilômetros da Capital paulista.

A teleaudiologia, inédita no Brasil, tem a coordenação e idealização do professor Ricardo Ferreira Bento, do Departamento de Otorrinolaringologia. O objetivo é fazer com que a adaptação dos aparelhos possa ser feita em localidades mais próximas dos domicílios dos pacientes.

Ajuste dos aparelhos auditivos

Atualmente para uma pessoa utilizar uma prótese auditiva, o aparelho precisará ser ajustado por uma fonoaudióloga em um dos 136 Centros Especializados do Brasil.

"Mas, em algumas situações, isso se torna muito complicado: a maioria dos usuários de aparelhos auditivos é composta de idosos. Eles costumam ter dificuldade de locomoção, sendo que muitos precisam ter acompanhantes para os levarem até um dos Centros. Há ainda gastos com transporte e alimentação. Isso limita o acesso e dificulta o sucesso da adaptação ao aparelho, visto que muitas vezes é preciso voltar ao fonoaudiólogo para ajustar a prótese. Com a Teleaudiologia, isso fica muito mais fácil", explica o engenheiro Sílvio Penteado, um dos pesquisadores envolvidos no projeto.

Equipamentos para telemedicina

O projeto-piloto foi realizado utilizando-se o aparelho chamado Florianópolis, desenvolvido pelo grupo de pesquisadores do Laboratório de Investigações Acústicas (LIA) do Departamento de Otorrinolaringologia da USP. Os três pacientes já eram usuários de prótese auditiva anteriormente e apresentavam perdas auditivas moderadas ou moderadas-severas.

Para realizar o procedimento foi necessário um programa de adaptação (denominado adaptEasy), notebooks (um em São Paulo e outro em Pouso Alegre), uma conta no Skype, e um aparelho programador padrão (usado para interligar a prótese auditiva ao computador).

No HC, os pesquisadores usaram o software Anyplace Control para acessar remotamente o notebook levado à cidade mineira. Também foi necessário, em Pouso Alegre, um provedor de acesso à internet.

Penteado destaca que não há obstáculos para a iniciativa ser colocada em prática em outros locais do Brasil. Do ponto de vista tecnológico, segundo ele, os custos são baixos e os recursos, abundantes.

"Em Pouso Alegre, tínhamos uma conexão de internet de baixa velocidade, de 300 Kbytes por segundo (kbps), e de 1 mega no HC. No início, houve um pequeno atraso na recepção da transmissão de áudio e vídeo, mas resolvemos o problema desativando, temporariamente, alguns recursos do notebook, como firewall e antivírus", comenta o pesquisador, que estava em Pouso Alegre acompanhando o procedimento.

Programa para fonoaudiólogos

Penteado conta que o adaptEasy foi desenvolvido a um baixo custo e é o programa que os fonoaudiólogos utilizam para ajustar os aparelhos às necessidades dos pacientes. O adaptEasy reconhece automaticamente as outras próteses criadas pelo grupo de pesquisa do Departamento de Otorrinolaringologia do HC, como os aparelhos auditivos Manaus, Sabará e Rio de Janeiro. Já o programa para acesso remoto sai por cerca de U$40,00.

O programador padrão de aparelho auditivos é o mesmo usado nas próteses doadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), cotado no mercado entre R$2 mil a R$3.400,00. "Num futuro próximo o programador padrão não será mais necessário, pois as próteses auditivas poderão ser conectadas diretamente ao computador via entrada USB", revela o pesquisador.

Do ponto de vista legal, Penteado lembra que o Ministério da Saúde já publicou a Portaria 402, que regulamenta as atividades da telemedicina no SUS. O Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) também já aprovou o uso da telemedicina por meio da Resolução 366, de 25 de abril de 2009.

Centros Especializados

"Atualmente, no Brasil, apenas os 136 Centros Especializados podem fazer as adaptações nos aparelhos. As empresas que hoje fornecem as próteses auditivas ao Governo centralizam os seus distribuidores, num modelo de negócios que não incorpora as necessidades do paciente típico do SUS o que dificulta o acesso dessas pessoas a locais distantes de suas residências", explica o engenheiro.

"Uma ação que traria muitos benefícios para as práticas de políticas públicas em audiologia seria a possibilidade de que qualquer Posto de Saúde, Hospital Regional ou Santa Casa fossem autorizados a fazer a adaptação dos aparelhos auditivos, desde que tivessem um fonoaudiólogo para acompanhar o procedimento", sugere o pesquisador.

O projeto envolveu a fonoaudióloga Gisele Munhoes dos Santos, da FMUSP, a supervisora e responsável pelo ISMO, Sueli de Lima Ramos, além das fonoaudiólogas do Instituto Sul Mineiro de Otorrinolaringologia Liliane Aparecida Souza, Elissandra Mnteiro e Fernanda Maria Ribeiro Hedinja.

No último dia 18 de março, os pesquisadores do Departamento de Otorrinolaringologia da USP realizaram um teste inicial de teleaudiologia, mas sem pacientes, envolvendo a Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, e o HC, em São Paulo. De acordo com Sílvio Penteado, o próximo passo do grupo de pesquisa é fazer novamente a adaptação de aparelhos auditivos remotamente, mas, desta vez, em cidades separadas por uma distância de cerca de mil quilômetros.


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