08/01/2026

Inteligência Artificial pode mudar nossa visão da morte?

Redação do Diário da Saúde

Recusa da morte

O professor Shisei Tei, da Universidade de Tóquio (Japão), afirma ser desajeitado com a tecnologia, mas isso não impede que sua reflexão atual se concentre na inteligência artificial generativa, a tecnologia por trás de aplicativos como ChatGPT, Deep Seek, Gemini e tantos outros.

O pesquisador se mostra cautelosamente otimista em relação à IA, que ele utiliza em seu trabalho para auxiliar na análise de dados psiquiátricos, e também fora do trabalho, para planejar trilhas em seus passeios e aventuras.

No entanto, Tei também teme que a IA mude a forma como encaramos a morte. "Hoje, vejo com frequência como a IA reformula o luto e a memória," afirmou.

Embora acredite que os programas de inteligência artificial, sobretudo aplicativos específicos desenvolvidos para a saúde mental, que alguns chamam de "psicólogos virtuais", tenham o potencial de reduzir as barreiras de acesso ao tratamento, seu uso inadequado, por exemplo para reconstruir a memória e até o modo de pensar e dialogar de indivíduos falecidos, pode distorcer nossa percepção da morte e da existência.

"Continuações virtuais de pessoas falecidas induzidas por IA podem confortar os vivos e estender a memória até certo ponto," propõe Tei, "Mas também podem confundir presença e ausência, potencialmente prejudicando nossa capacidade de aceitar a impermanência."

Inteligência Artificial pode mudar nossa visão da morte?
Parece haver um "terceiro estado" entre a vida e a morte.
[Imagem: Gumuskaya et al. 2023/Advanced Science]

Eu altruísta

O pesquisador explica que, historicamente, muitas culturas e tradições filosóficas consideraram a mente e o corpo como entidades separadas, sustentando a crença de que a mente, a parte que subsiste ao corpo, é eterna. Essa ideia permeia a sociedade moderna destacando a finitude da nossa vida biológica, mas também pode ser usada para tratar a morte como algo a ser superado ou adiado, em vez de uma parte essencial da vida. E isso tem sido reforçado pelas tentativas de usar a inteligência artificial para preservar a mente humana.

O professor Tei dedicou sua pesquisa a conectar psiquiatria, filosofia religiosa e neurofenomenologia, uma estrutura proposta pelo biólogo Francisco Varela. Ele foca na morte sob a perspectiva do "eu altruísta", um termo introduzido por Varela, em uma clara contraposição à ideia do "gene egoísta". Influenciado pelo budismo tibetano, Varela demonstra como os sistemas vivos se sustentam por meio da interdependência mútua de suas partes, como as células em um corpo.

"O 'eu altruísta' refere-se a ser altruísta e autônomo ao mesmo tempo - manter a individualidade enquanto permanece em harmonia com os outros e com o mundo em geral," explica Tei. "Nesse sentido, tal como as células em um corpo maior, as pessoas podem ser vistas como simultaneamente distintas, mas cocriando uma vida coletiva, com o eu entendido como fluido e moldado pela interação para atender às necessidades biológicas e sociais."

Deturpando o sentido da vida

E é esse conceito de eu altruísta que pode descrever características dos agentes de IA, já que eles apresentam identidades artificiais, mas carecem de uma individualidade fixa, juntamente com nossa interconexão e anonimato online.

No entanto, enquanto os sistemas de crenças tradicionais e os cuidados modernos de saúde mental enfatizam a importância de aceitar a incerteza, a IA pode nos tornar dependentes de respostas rápidas e diretas, a maioria das quais nunca obteremos, simplificando experiências complexas e reforçando o raciocínio de custo-benefício. "Terceirizar a tomada de decisões ou o apoio emocional para máquinas corre o risco de enfraquecer a própria sabedoria que buscamos cultivar," disse Tei.

Para os humanos, a empatia formada por meio da comunicação face a face e não verbal aumenta o senso de pertencimento, mostrando como é se sentir e o que significa estar vivo, enquanto a solidão e o isolamento podem nutrir a esperança. As percepções da morte surgem dessas interações: A morte pode evocar um sentimento de conexão com algo mais amplo - podemos morrer, mas parte de nós pode continuar vivendo em nossas comunidades.

O pesquisador enfatiza que incorporar essas ideias aos cuidados paliativos e refletir sobre elas, tanto individualmente quanto em nossas comunidades, pode nos ajudar a tratar aqueles que estão à beira da morte com dignidade e a aceitar a inevitabilidade do morrer.

"A morte se torna certa quando a vida começa, e negar sua antecipação significa correr o risco de negar a própria vida," conclui o pesquisador.

 

Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br

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