Células-tronco que receberam Nobel podem causar câncer

Lado negativo das células-tronco

Assim que o Prêmio Nobel de Medicina foi concedido às pesquisas com células-tronco, os estudos e as terapias promissoras em que eles podem resultar sofreram dois duros revezes.

O primeiro deles foi a denúncia de que outro pesquisador japonês que alegou ter conseguido fazer um transplante com células-tronco pode ter montado uma farsa.

Segundo a denúncia, feita por duas instituições dos Estados Unidos, não é apenas que os experimentos podem ter falhado - eles podem nem mesmo ter acontecido.

Mas o revés mais grave para as células-tronco veio de uma pesquisa de verdade, realizada na Universidade da Califórnia de Davis (EUA) e publicada na revista científica Stem Cells and Development.

Células-tronco e células de câncer

Os cientistas demonstraram que o comportamento das células-tronco consideradas mais promissoras para as terapias médicas é muito semelhante ao comportamento da células que dão origem ao câncer.

Essas células, conhecidas como células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs), são justamente aquelas criadas pelo Dr. Shinya Yamanaka e que lhe valeram o Prêmio Nobel de Medicina.

Os resultados sugerem que os cientistas e médicos devem ter muita cautela quanto ao uso clínico desse tipo de célula-tronco porque as iPSCs também podem causar câncer maligno.

"Este é o primeiro estudo que descreve os caminhos moleculares específicos que as iPSCs compartilham com as células cancerosas, por meio de uma comparação direta," disse Paul Knoepfler, principal autor do estudo. "Isso significa que serão necessários muito mais estudos antes que as iPSCs possam ser usadas clinicamente."

"Entretanto, nosso estudo se soma a uma crescente base de conhecimento que não só vai ajudar a tornar as terapias com células-tronco mais seguras, mas também nos fornecer novas compreensões sobre o processo causal do câncer, e formas mais eficazes para combater a doença," ressalta o pesquisador.

iPSCs - Células-tronco pluripotentes induzidas

Já há alguns anos os cientistas são capazes de induzir a diferenciação de células especializadas - tais como células da pele ou músculos de seres humanos adultos - para que elas se tornem novamente células-tronco pluripotentes, ou iPSCs.

Tal como as células-tronco embrionárias, as iPSCs são células capazes de se transformar em qualquer tipo de célula, e não apenas naquela usada na sua geração.

Esta capacidade "pluripotente" significa que as iPSCs têm o potencial de serem utilizadas em tratamentos para uma variedade de doenças humanas, um novo tipo de tratamento clínico conhecido como medicina regenerativa, ainda em fase de desenvolvimento.

As células-tronco pluripotentes induzidas são consideradas particularmente promissoras porque sua produção evita a polêmica que circunda as células-tronco embrionárias.

Além disso, as iPSCs podem ser geradas a partir da pele do próprio paciente e induzidas a produzir outros tecidos necessários, contornando assim a possibilidade de rejeição imunológica que surge quando o transplante de células é feito de um doador para um receptor.

Assim, ao contrário das terapias baseadas com células-tronco embrionárias, as células-tronco pluripotentes induzidas eliminam a necessidade de os pacientes tomarem drogas imunossupressoras.

Riscos das células-tronco

O alerta agora divulgado não é exatamente uma novidade, embora seja o estudo mais criterioso feito até o momento sobre os "desvios" que as células-tronco induzem quando são transplantadas em organismos vivos.

Pesquisas anteriores já indicaram que tanto as células-tronco embrionárias quanto as iPSCs apresentam riscos para a saúde.

Cada vez mais surgem indícios que sugerem que a pluripotência pode estar relacionada com o crescimento celular excessivamente rápido, uma característica essencial do câncer.

Já é fartamente documentado que as iPSCs, bem como as células-tronco embrionárias, têm a propensão para causar teratomas, um tipo raro de tumor benigno que consiste em muitos tipos de células diferentes.

O novo estudo demonstra pela primeira vez que as iPSCs - assim como as células-tronco embrionárias - partilham semelhanças significativas com as células cancerosas malignas.

"Ficamos surpresos no quanto as iPSCs são semelhantes às células que geram o câncer," diz Knoepfler. "Nossas descobertas indicam que a busca por aplicações terapêuticas das iPSCs deve prosseguir com uma cautela considerável se quisermos fazer o melhor que pudermos para promover a segurança dos pacientes."


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