
Amor idealizado
O quadro tradicional de encontrar alguém que, ao mero olhar, faça disparar o coração, iniciando romances no estilo Romeu e Julieta, nunca se baseou realmente em fatos com uma relevância estatística para a população em geral - está longe de acontecer com todo mundo - mas impera como o referencial para a sociedade ocidental há milênios.
Reza Shabahang e colegas da Universidade Flinders (Austrália) queriam saber se esse referencial idílico está sendo alterado por fenômenos modernos, como os aplicativos de namoro, que trocam os olhares apaixonados por uma espécie de análise de currículo, e os sites de pornografia, que têm sido associados a vícios.
"Já sabemos que o uso excessivo, quase compulsivo, de aplicativos de namoro e pornografia está ligado a problemas como ansiedade, depressão, hábitos alimentares pouco saudáveis e dificuldade em controlar o comportamento sexual," comentou o pesquisador.
"Queríamos saber se o uso compulsivo de aplicativos de namoro e pornografia influencia a forma como as pessoas veem o amor romântico. Elas ainda o consideram significativo, valioso mais do que dinheiro e digno de fidelidade? Eles afetam a maneira como vemos o próprio amor e o valor existencial que lhe atribuímos?" questiona o pesquisador.

Amor desconstruído
Os resultados mostraram que, quanto mais as pessoas usam essas plataformas de forma compulsiva, menos elas valorizam o amor romântico.
"Elas tendem a ver o amor como algo sem sentido, a acreditar que só funciona quando há dinheiro envolvido e a entrar e sair de relacionamentos rapidamente," descreveu a professora Ágnes Zsila, da Universidade de Budapeste (Hungria). "Acreditamos que os pontos negativos dessas plataformas fazem parte da resposta. Por exemplo, os aplicativos de namoro podem deixar as pessoas sobrecarregadas com opções demais e presas em conversas superficiais."
A pornografia, por sua vez, coloca a ênfase na gratificação física, preterindo a intimidade nos relacionamentos pessoais. "Com o tempo, essa ênfase pode contribuir para que os relacionamentos sejam vistos principalmente como um meio de satisfazer necessidades sexuais, em vez de uma fonte de conexão emocional mais profunda," disse Zsila.
Mas nem tudo parece perdido ou, dito de outro modo, nem todos parecem se perder na viciação. "Pessoas que usavam a tecnologia com mais 'consciência' tiveram menos probabilidade de se tornarem viciadas e relataram menos problemas com a forma como viam o amor," diz Shabahang.
Em outras palavras, usar a tecnologia com consciência, incluindo essas ferramentas, pode até ajudar, mostrando a necessidade de os usuários estarem cientes dos riscos de danos a si mesmos ao usá-las.
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