10/12/2018

Descompasso da vida moderna gera jet lag social

Com informações da Agência Fapesp
Descompasso da vida moderna gera jet lag social"">
Mesmo nossos genes operam de forma rítmica, seguindo as batidas do ritmo circadiano. Outro exemplo é que eventos como infarto e AVC ocorrem mais de manhã.
[Imagem: Fiocruz]

Jet lag social

Nas sociedades modernas, os ritmos diários, ou circadianos - aqueles que fazem levantar, sentir fome ou sono - são determinados por três relógios: o Sol, o relógio interno do ser humano e o social.

Esse último surge como uma imposição que, por exemplo, faz acordar horas antes do que se gostaria para ir trabalhar, criando o chamado "jet lag social".

jet lag, ou cansaço aéreo, é o cansaço extremo e outros efeitos físicos sentidos por uma pessoa após um longo voo, sobretudo através de vários fusos horários. Já o jet lag social está relacionado com a insônia e outros fenômenos que incluem o abuso de estimulantes e medicamentos, por exemplo.

"Existe a necessidade de um entendimento interdisciplinar e internacional dessa questão. Podemos sentir que há um descompasso em quase todo o mundo, com impactos na saúde, produtividade das pessoas, economia e também nas escolas," explicou o pesquisador Orie Shafer, cronobiólogo e neurobiólogo da Universidade Cidade de Nova York (CUNY), que credita a esse descompasso graves problemas emocionais e de saúde em todo o mundo.

Moscas-da-fruta e humanos

A equipe de Shafer se concentra em entender como as redes neurais formam o ritmo circadiano - mecanismos bioquímicos que permitem que os seres vivos organizem seu sono e acordem durante o ciclo de 24 horas de um dia.

Isso envolve, por exemplo, compreender como as redes neurais do relógio interno operam quando são desafiadas por luzes artificiais, falta de luz solar e escuridão. Para acelerar os estudos, são usadas mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster).

"Temos 20 mil neurônios em cada hemisfério do cérebro. A drosófila oferece um ótimo modelo com mil neurônios, sendo que apenas 70 contêm o relógio molecular. Os genes descobertos na mosca-das-frutas são similares aos descobertos em humanos e as mutações nessas regiões cerebrais correspondentes causam alterações do sono em humanos," explicou Shafer.

"Em cada tecido do corpo e em pequenas ilhas do cérebro esses relógios moleculares funcionam o tempo inteiro e regulam o sono. A interação dos neurônios que contêm relógios cria um sentido endógeno do tempo e regula como os neurorreceptores ligam e desligam esse relógio ao longo do tempo", disse.

A descoberta dos mecanismos que controlam o ciclo circadiano rendeu o prêmio Nobel de Fisiologia em 2017 aos norte-americanos Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young. A partir de estudos realizados em mosca-das-frutas, eles elucidaram como plantas, animais e humanos adaptam seu ritmo biológico para que seja sincronizado com o ciclo da Terra.

Cronótipo

Paralelamente às descobertas genéticas em animais e humanos, foram feitos estudos em vários centros de pesquisa sobre as características do padrão de sono da população. Dentre os resultados, descobriu-se que o cronótipo - que leva algumas pessoas a serem mais ativas durante o dia, e outras, à noite - tem distribuição replicável em grandes amostras em diferentes culturas.

"Na média, a jornada de trabalho começa às 7h55. Nas escolas, a média é 7h59. No entanto, nos dias de folga, as pessoas em média vão dormir 0h30 e levantam às 8h30. Pessoas com o cronótipo de dormir mais tarde tendem a sofrer uma espécie de jet lag e suas consequências comportamentais", disse.

Shafer explica que o cronótipo é hereditário, mas tem também influência ambiental. Tem sido mostrado que, por causa de novos hábitos de uso de luz artificial, pode ocorrer um aumento na população de pessoas notívagas.

"Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo mostrou que entre a capital paulista e Londres há uma grande sobreposição de cronótipos. Isso mostra como os relógios internos são desafiados pelos ambientes modernos com muita luz artificial e pouca escuridão. É um problema que está piorando e acredito que ao longo dos anos teremos cada vez mais cronótipos tardios," disse.

Nesse cenário, Shafer estima serem necessários mais estudos e colaborações internacionais, como o mencionado estudo feito na USP, que contou com colaboradores da Universidade de Surrey, no Reino Unido. "Há impacto na qualidade de vida das pessoas. Normalmente, elas são consideradas dorminhocas ou preguiçosas, mas é como se mudassem de fuso horário toda semana", disse.


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