
Hábito versus planejamento
A compulsão, característica central de condições como o TOC, vícios e transtornos alimentares, está diretamente ligada à dificuldade de prever as consequências de planos a longo prazo.
A conclusão veio quando Sirichat Sookud e colegas da Universidade Kings College (Inglaterra) analisaram cerca de 2.000 voluntários para estudar como eles lidavam com diferentes tipos de tomada de decisão.
Os dados revelaram que pessoas com traços compulsivos mais acentuados não ignoram o planejamento por serem incapazes de fazê-lo, mas sim porque sentem uma incerteza profunda sobre os resultados de suas ações futuras, o que as leva a buscar refúgio em hábitos familiares e repetitivos.
No dia a dia, tomamos decisões baseadas em duas estratégias principais. A primeira é o planejamento, ou "Estratégia Baseada em Modelos", que exige simular mentalmente o futuro, como escolher uma salada hoje para reduzir o colesterol no futuro. A segunda é o hábito, ou "Estratégia Livre de Modelos", que leva a uma escolha automática e simplificada, baseada em repetições passadas, como pegar uma pizza congelada ao chegar cansado em casa.
Embora esses comportamentos existam em um espectro em toda a população, a ciência busca entender por que algumas pessoas ficam presas em ciclos de repetição, como verificar uma porta diversas vezes ou ceder a um vício, mesmo quando isso contradiz seus objetivos de longo prazo. É aqui que entra a compulsão, que pode levar a condições psiquiátricas.
O papel da incerteza
Utilizando um videogame formatado sob princípios matemáticos, os pesquisadores conseguiram separar aquelas duas estratégias de decisão de cada participante. O jogo exigia que os jogadores escolhessem quem ia receber munição para atingir alvos, forçando-os a criar um "modelo interno" de como suas escolhas afetariam o resultado final, enquanto lidavam com o risco de a munição explodir antes de atingir o alvo (fator de incerteza).
Os dados mostraram que, quanto maior o nível de compulsividade do indivíduo, (1) maior a propensão ao hábito, com os voluntários recorrendo ao que já conheciam para evitar o esforço mental de um plano incerto; e (2), maior a incerteza percebida, com os voluntários mostrando menos confiança em como suas ações se desdobrariam no futuro.
Isso oferece uma explicação mecânica inédita: O comportamento compulsivo pode ser uma resposta adaptativa à insegurança sobre o amanhã: Se o futuro parece imprevisível ou nebuloso, a pessoa prioriza a ação que trouxe alívio ou recompensa imediata no passado.
Segundo a equipe, esta descoberta ajudará no refinamento das terapias, que poderão focar na redução da ansiedade perante o futuro e no fortalecimento da confiança do paciente em suas simulações mentais, em vez de focar apenas na interrupção do hábito, que é o caminho usual em terapias para TOC e vícios, por exemplo.
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