
Musicalidade é produto da evolução?
Recém-nascidos detectam ritmos, preferem certos contornos melódicos e formam expectativas sobre tempo e altura musical, antes mesmo de aprenderem a falar.
Esta descoberta, somada a duas décadas de pesquisas em psicologia, neurociência e cognição animal, está levando cientistas a concluírem que os seres humanos são fundamentalmente "animais musicais", e que a musicalidade é uma capacidade biológica enraizada na evolução, não apenas um produto cultural.
"Durante grande parte do século XX, as pessoas pensavam que estudar a evolução da música era pura especulação. Como a música não pode ser encontrada no registro fóssil, muitos presumiam que nunca poderíamos investigá-la cientificamente. Mas essa visão agora está ultrapassada," defende o professor Henkjan Honing, da Universidade de Amsterdã (Países Baixos).
Na visão tradicional anterior, os cientistas tratavam a música como um subproduto da linguagem ou como "ornamento cultural", sem conexão biológica. Essa visão, porém, foi-se mostrando cada vez mais insustentável diante de evidências de que bebês apresentam habilidades musicais espontaneamente, sem ensino formal, e de que pacientes com graves distúrbios de linguagem podem preservar capacidades musicais - enquanto outros com linguagem normal sofrem de amusia congênita, uma dificuldade específica para processar música.

A biologia da musicalidade
Este novo estudo consolida o que o professor Honing chama de "hipótese dos múltiplos componentes": A musicalidade não é um traço único, mas um mosaico de habilidades, incluindo percepção de batida, processamento de altura musical e resposta emocional, cada uma com sua própria história evolutiva.
Para rastrear as raízes evolutivas da musicalidade, os cientistas também estudaram outras espécies, uma abordagem comparativa que ajuda a identificar quais componentes são ancestrais e quais podem ser exclusivamente humanos.
Quando uma característica musical é encontrada tanto em humanos quanto em outros primatas, é provável que ela existisse em um ancestral comum; quando ela aparece em animais distantes, como aves, isso sugere que a evolução chegou a soluções semelhantes de forma independente.
Além disso, exames de imagem cerebral mostram que a música e a fala dependem de circuitos neurais parcialmente distintos, reforçando que a música não é "apenas uma linguagem com enfeite", podendo até ser mais antiga do que a própria linguagem.

Somos seres musicais
As implicações desta mudança de paradigma vão além de explicar por que gostamos de música: O conhecimento sobre a base biológica da musicalidade pode inspirar novos tratamentos para distúrbios de linguagem, deficiências motoras e desregulação emocional, além de orientar abordagens inovadoras na educação e na promoção do bem-estar.
Reconhecer que a musicalidade é uma capacidade biológica central, concluem os pesquisadores, muda a forma como nos vemos: Somos, por natureza, seres musicais.
"O estudo da musicalidade passou do debate filosófico para a ciência empírica. Agora podemos fazer perguntas precisas sobre como componentes específicos evoluíram e como funcionam em diferentes espécies," concluiu Honing.
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