06/09/2019

Vírus zika gera prejuízos motores e de memória em adultos

Com informações da Agência Brasil
Vírus zika gera prejuízos motores e de memória em adultos
O vírus zika ataca também os neurônios maduros de adultos, o que exigirá reavaliação dos pacientes anos depois da infecção.
[Imagem: Figueiredo et al. - 10.1038/s41467-019-11866-7]

Complicações em adultos

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) constataram que o vírus zika, além de se replicar no cérebro de pessoas adultas, também causa prejuízos de memória e problemas motores.

O estudo foi iniciado na época do surto de zika no país, nos anos de 2015 e 2016. "[Na época] aumentou o número de casos e, junto com a microcefalia, que foi o que chamou mais a atenção, começaram a aparecer complicações em pacientes adultos," relembra uma das coordenadoras da pesquisa, a neurocientista Cláudia Figueiredo.

Apesar de a doença ser majoritariamente autolimitada, com sintomas leves, muitos pacientes apresentavam quadro mais grave: alguns entravam em coma ou tinham internações por períodos mais longos.

"Então, surgiu a nossa pergunta: os pesquisadores têm mostrado que o vírus se replica em células progenitoras, que são aquelas do feto, do nervo central. Será que esse vírus não infecta também o neurônio maduro? Foi aí que começou a nossa abordagem", contou Cláudia.

Zika em neurônios adultos

Os pesquisadores da UFRJ usaram tecidos de acesso, ou seja, tecidos sem doença, de pacientes adultos que haviam se submetido a cirurgias do cérebro, mas não tinham zika. Eles fizeram cultura em laboratório e colocaram o vírus zika nesse tecido, que possui neurônios maduros. Observaram então que o vírus infectava aquelas células, principalmente os neurônios desse tecido, e se replicava nesse tecido. Ou seja, produzia novas partículas virais.

Nesse meio tempo, surgiram dados clínicos de que, em alguns pacientes, se detectava o vírus no sistema nervoso central, no líquor, que é o líquido que envolve o cérebro. Os pesquisadores da UFRJ decidiram então ver que tipo de efeito aconteceria se infectassem o cérebro de um animal adulto com esse vírus. "A gente fez a administração do vírus dentro do cérebro do camundongo adulto e observou várias coisas", disse Cláudia.

Constatou-se então que o vírus se replicava no cérebro do animal adulto e tinha preferência por áreas relacionadas com a memória e o controle motor.

"E era justamente isso que estava alterado nos pacientes quando eles tinham o vírus em quadros mais complicados. Não só o vírus se replicou, mas ele [camundongo] ficou com prejuízo de memória e prejuízo motor. Quando o vírus infecta, em algumas pessoas, não se sabe por quê, o vírus chega ao sistema nervoso central, em outras não, depende de vários fatores, e pode causar esse tipo de dano," disse Cláudia.

Reavaliar os pacientes

Nos animais de laboratório, o prejuízo de memória foi além da fase da infecção, permanecendo mesmo após a infecção ter sido controlada. O vírus se replicou, com um pico de replicação de vários dias. "Só que, até 30 dias depois que o vírus já está com quantidade baixa no cérebro, o animal ainda continua com prejuízo de memória. O prejuízo de memória persiste," disse Cláudia, lembrando que 30 dias na vida de um camundongo equivalem de dois a quatro anos na vida de um ser humano: "É muito tempo".

O estudo também concluiu que o vírus induz uma informação importante no cérebro: que esses períodos de memória estão associados a quadros inflamatórios muito intensos. Os pesquisadores usaram um anti-inflamatório e viram que esse tratamento melhora o prejuízo de memória, levando o paciente a recuperar a função prejudicada.

Os cientistas acreditam que a descoberta pode contribuir para a elaboração de políticas públicas para tratamento de complicações neurológicas por zika em pacientes adultos. Eles alertam, por exemplo, que pode ser necessário avaliar a memória dos pacientes infectados após alguns anos.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Zika virus replicates in adult human brain tissue and impairs synapses and memory in mice
Autores: Claudia P. Figueiredo, Fernanda G. Q. Barros-Aragão, Rômulo L. S. Neris, Paula S. Frost, Carolina Soares, Isis N. O. Souza, Julianna D. Zeidler, Daniele C. Zamberlan, Virginia L. de Sousa, Amanda S. Souza, André Luis A. Guimarães, Maria Bellio, Jorge Marcondes de Souza, Soniza V. Alves-Leon, Gilda A. Neves, Heitor A. Paula-Neto, Newton G. Castro, Fernanda G. De Felice, Iranaia Assunção-Miranda, Julia R. Clarke, Andrea T. Da Poian, Sergio T. Ferreira
Publicação: Nature Communications
Vol.: 10, Article number: 3890
DOI: 10.1038/s41467-019-11866-7

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