02/06/2021

Anticorpos de quem teve covid pelo coronavírus original protegem contra variante P.1

Com informações da Agência Fapesp
Anticorpos de quem teve covid pelo coronavírus original protegem contra variante P.1
Em 84% dos casos, os anticorpos presentes nas amostras foram capazes de neutralizar a nova variante em culturas celulares
[Imagem: IMT/USP]

Proteção contra variantes

Os anticorpos gerados durante uma infecção pelo novo coronavírus "original" - ou "cepa ancestral", antes das mutações - são capazes de neutralizar também a variante P.1, que emergiu em novembro de 2020 na cidade de Manaus (AM) e é considerada mais transmissível.

A conclusão é de pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical da USP (Universidade de São Paulo), que fizeram análises laboratoriais do plasma sanguíneo de 60 voluntários infectados pela linhagem B.1.1.28 do SARS-CoV-2, a primeira identificada no Brasil.

Em 84% dos casos, os anticorpos presentes nas amostras coletadas após o 15º dia de infecção com o vírus original foram capazes de neutralizar a P.1 em culturas celulares, o que significa que esses indivíduos teriam menor chance de contrair novamente a covid-19.

"Os resultados sugerem que os indivíduos infectados pela cepa ancestral do SARS-CoV-2 tendem a estar mais protegidos caso se deparem com a nova variante. Isso não elimina o risco de reinfecção, de doença sintomática ou mesmo de morte. De qualquer forma, traz uma mensagem de esperança num momento em que as coisas estão bem complicadas," afirmou a professora Maria Cássia Correa.

Variantes

Após ter o diagnóstico confirmado por teste de RT-PCR, os 60 voluntários com sintomas leves incluídos no estudo foram monitorados durante 42 dias e submetidos a coletas semanais de sangue para análise do perfil sorológico.

Cada amostra de plasma passava por um ensaio de vírus-neutralização (VNT), procedimento que envolve o cultivo do SARS-CoV-2 in vitro e, por esse motivo, requer estrutura laboratorial com alto nível de biossegurança.

Diferentemente dos testes laboratoriais comuns, que detectam a presença dos anticorpos IgM (imunoglobulina M, o primeiro a ser produzido na fase aguda) e IgG (imunoglobulina G, que aparece no fim da fase aguda), a técnica VNT permite dosar no plasma a quantidade de anticorpos neutralizantes - capazes de se ligar à ponta da proteína espícula, que é usada pelo SARS-CoV-2 para se conectar com o receptor da célula humana e viabilizar a infecção.

A variante P.1 tem causado preocupação por apresentar mutações na proteína espícula, algumas delas na região conhecida como domínio de ligação ao receptor.

Novos testes de longo prazo

Nos testes feitos com a linhagem B.1.1.28, os anticorpos presentes no plasma coletado de 56 voluntários (90%) conseguiram neutralizar o vírus em cultura. Já no caso da P.1, amostras de 50 participantes (84%) foram bem-sucedidas no teste.

Nos dois casos, somente após o 15º dia de infecção houve quantidade suficiente de anticorpos neutralizantes para combater o vírus, sendo que o desempenho frente à cepa ancestral foi superior em todos os momentos avaliados.

"Importante ressaltar que os testes foram feitos com plasma coletado em 2020 e, portanto, não é possível afirmar que hoje essas pessoas estariam igualmente protegidas. Os anticorpos neutralizantes, assim como os do tipo IgG e IgM, tendem a decair com tempo," ressalvou a pesquisadora.

Para dirimir essa dúvida, a equipe está repetindo os ensaios com amostras de plasma coletadas dos mesmos voluntários 180 dias após a infecção. Os resultados dessa segunda etapa da pesquisa devem ser divulgados em breve.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Individuals who were mildly symptomatic following infection with SARS-CoV-2 B.1.1.28 have neutralizing antibodies to the P.1 variant
Autores: Maria Cassia Mendes-Correa, Lucy S. Villas-Boas, Ana Luiza Bierrenbach, Anderson de Paula, Tania Regina Tozetto-Mendoza, Fabio E. Leal, Wilton Freire, Heuder Gustavo Oliveira Paiao, Andrea B C Ferraz, Steven S. Witkin
Publicação: MedRXiv
DOI: 10.1101/2021.05.11.21256908
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