25/11/2022

Uma nova visão sobre o cérebro: Está tudo nas conexões

Redação do Diário da Saúde
Uma nova visão sobre o cérebro: Está tudo nas conexões
Seção do cérebro humano mostrando a arquitetura de fibras até axônios únicos no hipocampo. As cores representam as orientações das fibras 3D, destacando os caminhos de fibras e tratos individuais.
[Imagem: Markus Axer/Katrin Amunts/INM-1/Forschungszentrum Jülich]

Mito científico

Neurocientistas estão propondo um novo modelo de como o cérebro funciona: Não são as regiões individuais do cérebro que importam, mas as conexões entre essas regiões.

Essa nova visão permite entender melhor por que e como os cérebros e suas ativações variam entre as pessoas.

Stephanie Forkel (Universidade Radboud, nos Países Baixos) e Michel Thiebaut (Universidade de Bordeaux, na França) exemplificam as deficiências das teorias atuais afirmando que é um "mito urbano" a afirmação de que nosso hemisfério direito seria responsável pela criatividade, enquanto o lado esquerdo do nosso cérebro cuidaria do pensamento racional.

Talvez seja um mito, mas um mito que os próprios cientistas colocaram em todos os livros didáticos, derivado da visão difundida pela academia de que nosso cérebro funciona de forma modular, com cada parte fazendo uma tarefa.

No entanto, devemos olhar para a função cerebral de forma diferente, afirmam agora Forkel e Thiebaut.

Essencial para falar e ler

As funções cerebrais não estão localizadas em regiões cerebrais individuais, mas emergem da troca de informações entre essas regiões, propõem os dois pesquisadores.

"Veja a linguagem como um exemplo," explica Forkel. "Aqui, o resultado é maior do que apenas a soma das partes. Para se comunicar, você precisa entender muito rapidamente o que está sendo dito dentro de um determinado contexto e considerar as intenções emocionais, que dependem de com quem você está conversando. Se o cérebro funcionasse de forma modular, ele não nos permitiria ter todos esses diferentes cálculos de linguagem em um período de tempo tão curto."

Já as conexões podem amplificar ou reduzir os sinais cerebrais e determinar a estrutura e a função do cérebro. De fato, existe uma forte relação entre o padrão de conexões das regiões do cérebro e sua atividade durante as tarefas cognitivas. É possível prever, por exemplo, onde uma função no cérebro aparecerá com base nas conexões cerebrais.

"Se você olhar para o cérebro de uma criança antes da alfabetização, você verá que a matéria branca, que consiste em vias nervosas, já está conectada à área de leitura 'clássica'," exemplifica Forkel.

Uma nova visão sobre o cérebro: Está tudo nas conexões
Vários estudos têm mostrado que o cérebro funciona como um todo, e não em áreas com vocações específicas, enquanto outros mostram que as tarefas mudam de endereço no cérebro.
[Imagem: Pack Lab]

Diferenças cerebrais

Uma lacuna importante na visão clássica do cérebro como sendo modular é que ela não consegue explicar a variabilidade entre os indivíduos.

"Cada pessoa tem um cérebro diferente, que não é em nada parecido com o cérebro dos livros-texto que todos conhecemos. Isso é algo que percebi quando trabalhei em cérebros post-mortem. A pesquisa de neuroimagem, na maioria das vezes, faz com que todos os cérebros dos participantes se encaixem em um cérebro padrão, levando a uma perda de visão sobre a variabilidade entre as pessoas. Esse é um grande tópico da neurociência no momento," disse Forkel.

Com a nova abordagem de uma rede e suas conexões, os cientistas podem modelar a variabilidade entre nossos cérebros, por exemplo, à luz da evolução. "Se você olhar para a matéria branca, veremos que as partes mais antigas do nosso cérebro (o cérebro 'réptil') são mais ou semelhantes. As partes que evoluíram mais recentemente são mais variáveis entre nós. Isso coloca a evolução do cérebro em um novo quadro," disse a pesquisadora.

Além disso, esta nova abordagem para estudar a função cerebral pode ter um grande impacto nos tratamentos clínicos: "Há pacientes com lesões cerebrais sem quaisquer sintomas ou sintomas que você não esperaria. Em um estudo, nós analisamos como as lesões afetavam toda a rede cerebral e pudemos mostrar que poderíamos usar o padrão de rede para prever quais sintomas os pacientes tiveram ou quais sintomas eles desenvolveriam um ano depois."

Redes de cientistas

Com tantos argumentos e demonstrações, começa agora o trabalho mais difícil: Convencer os outros cientistas de que a visão que eles ensinaram por décadas não corresponde à realidade.

Para atualizar o conhecimento com esse novo modelo, a dupla de neurocientistas afirma que será necessário que os pesquisadores criem redes entre eles, para integrar os vários campos da pesquisa neurocientífica. Isso ampliará os limites atuais e levará a métodos mais avançados de neuroimagem, modelos anatômicos personalizados e, eventualmente, gerará impactos clínicos para o tratamento de condições afetando o cérebro.

Checagem com artigo científico:

Artigo: The emergent properties of the connected brain
Autores: Michel Thiebaut de Schotten, Stephanie J. Forkel
Publicação: Science
Vol.: 378, Issue 6619 pp. 505-510
DOI: 10.1126/science.abq2591
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