25/09/2020

A consciência é contínua ou discreta? Talvez as duas coisas

Redação do Diário da Saúde
A consciência é contínua ou discreta? Talvez as duas coisas
A ciência e a medicina não sabem ainda como a anestesia nos faz perder a consciência - tudo o que temos são teorias.
[Imagem: Cortesia Lee Lab/Stanford University]

O que é consciência?

Duas teorias principais têm alimentado um debate de 1.500 anos, iniciado por Santo Agostinho: A consciência é contínua, onde estamos conscientes em cada ponto do tempo, ou é discreta, onde estamos conscientes apenas em certos momentos do tempo?

Devido à sua natureza abstrata, os filósofos e os cientistas têm tentado em vão definir a percepção consciente e inconsciente. O que sabemos é que uma pessoa passa da inconsciência para a consciência ao acordar de manhã ou passa da consciência para a inconsciência quando fica sob efeito de uma anestesia.

A maioria dos filósofos concorda com a ideia de percepção consciente contínua porque ela segue a intuição humana básica de "Temos a sensação de que estamos conscientes em todos os momentos".

Por outro lado, a ideia menos popular de percepção discreta, ou descontínua, que embasa o conceito de que os humanos só são conscientes em certos momentos do tempo, tem tido dificuldade de sustentação porque não existe uma duração universal para esses hipotéticos "pontos no tempo".

Os professores Michael Herzog, Leila Drissi-Daoudi e Adrien Doerig, da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), na Suíça, que se autodenominam psicofísicos, estão agora tentando oferecer uma nova resposta à questão.

Para isso, o trio criou um novo modelo da consciência que combine tanto momentos contínuos como pontos discretos de tempo - um modelo científico é uma idealização simplificada de uma realidade conforme ela é descrita por uma hipótese ou por uma teoria.

Percepção discreta e percepção contínua

Os pesquisadores aproveitaram os benefícios de ambas as teorias para criar um novo modelo de dois estágios em que uma percepção consciente discreta é precedida por um período de processamento inconsciente de longa duração.

"A consciência é basicamente como um filme. Acreditamos que vemos o mundo como ele é, que não existem lacunas, que não há nada no meio, mas isso não pode ser realmente verdade," pondera Michael Herzog. "A mudança não pode ser percebida imediatamente. Ela só pode ser percebida depois que aconteceu. Você precisa processar as informações continuamente, mas não pode percebê-las continuamente."

Imagine andar de bicicleta. Se você começasse a cair e esperasse meio segundo para reagir, não haveria como se segurar antes de atingir o solo. No entanto, se você combinar breves momentos conscientes com períodos mais longos de processamento inconsciente, em que a informação é integrada, sua mente lhe diz o que você percebeu e você se equilibra.

A consciência é contínua ou discreta? Talvez as duas coisas
Recentemente, pesquisadores afirmaram ter medido o estado mais elevado de consciência humana.
[Imagem: Beckley/Imperial Research Foundation]

"É o zumbi dentro de nós que dirige sua bicicleta - um zumbi inconsciente com excelente resolução espacial/temporal," defende Herzog. A cada momento, você não estará dizendo a si mesmo: "Mova a bicicleta mais um metro". Os pensamentos e o ambiente são atualizados inconscientemente, e seu eu consciente usa as atualizações para ver se elas fazem sentido. Se não fizerem, você muda sua rota.

"O processamento consciente está superestimado," diz ele. "Você deveria dar mais peso ao período de processamento obscuro e inconsciente. Você apenas acredita que está consciente a cada momento."

Respostas e questões sem resposta

Os autores escrevem que seu modelo de dois estágios não apenas resolve o problema filosófico de 1.500 anos, mas também dá nova liberdade aos cientistas em diferentes disciplinas.

"Eu acredito que [o modelo] ajuda as pessoas a alimentar completamente o processamento de informações para diferentes perspectivas porque eles não precisam traduzi-lo de quando um objeto é apresentado diretamente à consciência," disse Herzog. "Como temos essa dimensão extra de tempo para resolver problemas, se as pessoas levarem isso a sério e se for verdade, isso pode mudar os modelos em neurociência, psicologia e, potencialmente, também em visão computacional."

Embora este modelo de dois estágios possa contribuir para o debate acadêmico de o que é a consciência, ele ainda deixa questões sem resposta.

Por exemplo: Como os momentos conscientes são integrados? O que inicia o processamento inconsciente? E como esses períodos dependem da personalidade, do estresse ou da doença, como a esquizofrenia? "A questão de para o que a consciência é necessária e o que pode ser feito sem ela? Não temos ideia," admite Herzog.

Checagem com artigo científico:

Artigo: All in Good Time: Long-Lasting Postdictive Effects Reveal Discrete Perception
Autores: Michael H. Herzog, Leila Drissi-Daoudi, Adrien Doerig
Publicação: Trends in Cognitive Sciences
DOI: 10.1016/j.tics.2020.07.001
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