07/07/2026

O mistério das pessoas que têm Alzheimer mas nunca apresentam sintomas

Redação do Diário da Saúde
O mistério das pessoas que têm Alzheimer mas nunca apresentam sintomas
"Essas células são extremamente raras, então tivemos que desenvolver novas maneiras de encontrá-las. Nós realmente focamos no local exato onde esperávamos encontrá-las."
[Imagem: Giorgia Tosoni et al. - 10.1016/j.stem.2026.04.002]

Alzheimer sem sintomas

Você sabia que é possível ter Alzheimer e não sofrer as consequências da doença? Este enigma - por que alguns cérebros resistem ao Alzheimer mesmo quando a doença já está presente - vêm desafiando médicos e cientistas há décadas.

Agora, Giorgia Tosoni e colegas do Instituto Holandês de Neurociências (Países Baixos) acreditam ter encontrado uma resposta: A resistência do Alzheimer depende de como células cerebrais específicas, conhecidas como neurônios imaturos, respondem aos danos causados pela doença.

E, de modo mais geral, a descoberta traz informações importantes sobre o mistério da resiliência cognitiva no envelhecimento apresentado por algumas pessoas.

"Cerca de 30% dos idosos que desenvolvem a doença de Alzheimer nunca apresentam sintomas. Realmente não sabemos o porquê. É um grande mistério, e um mistério muito importante," comentou a professora Evgenia Salta, coordenadora da pesquisa.

O mistério das pessoas que têm Alzheimer mas nunca apresentam sintomas
O que parece claro é que as teorias clássicas sobre o Alzheimer não conseguem explicar muita coisa.
[Imagem: Ju-Hyun Lee et al. - 10.1038/s41593-022-01084-8]

Resiliência cognitiva

Uma possível explicação para a resiliência cognitiva é que alguns cérebros são melhores em se reparar, eventualmente desenvolvendo novas células cerebrais conforme o cérebro começa a se degenerar pela velhice. Essa neurogênese adulta já foi bem documentada em outros animais, mas sua existência em humanos tem sido debatida há anos.

A equipe está tentando esclarecer isto estudando amostras de cérebros doadas para pesquisas, vindos de doadores sem patologia cerebral, pacientes com Alzheimer e indivíduos com patologia de Alzheimer que permaneceram resistentes ao desenvolvimento de demência.

A equipe encontrou o que procurava: Os chamados neurônios "imaturos", células que se assemelham a neurônios jovens, ainda não totalmente desenvolvidos. "Mesmo com uma idade média superior a 80 anos, ainda encontramos esses neurônios imaturos em todos os grupos," contou Salta.

Mas a maior surpresa veio a seguir: Embora a equipe esperasse encontrar muito mais dessas células no grupo resiliente do que nos pacientes com Alzheimer, a diferença não foi tão grande quanto o esperado. Isso aponta para uma história mais complexa do que se imaginava.

"Pode não se tratar apenas de substituir neurônios perdidos," ponderou a pesquisadora. "É possível que essas células deem suporte ao tecido circundante e ajudem o cérebro a se manter funcional e 'jovem'. Elas podem atuar como uma espécie de fertilizante em um jardim que começou a se deteriorar. Em indivíduos resilientes, essas células parecem ativar programas que os ajudam a sobreviver e a lidar com danos. Também observamos níveis mais baixos de sinais relacionados à inflamação e à morte celular."

Novas perspectivas sobre o Alzheimer

A pergunta que permanece como o alvo crucial das pesquisas é: O que determina como o cérebro envelhece? "Em algum ponto dessa trajetória, existe uma espécie de ponto de decisão. Algumas pessoas permanecem estáveis, outras desenvolvem demência. Queremos entender o que causa essa diferença," resumiu Salta.

Embora os resultados não forneçam respostas imediatas sobre por que algumas células se comportam de maneira diferente em pacientes com Alzheimer e em indivíduos resilientes, elas contribuem para uma mudança crescente na pesquisa sobre Alzheimer: Do foco exclusivo na progressão da doença para a compreensão da resiliência a ela.

"A resiliência cognitiva é extremamente empolgante," ponderou Salta. "Se entendermos o que protege esses cérebros, isso poderá levar a novas estratégias terapêuticas." Por ora, a mensagem é clara: O cérebro em envelhecimento pode ser mais adaptável e mais complexo do que pensávamos.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Transcriptional profiles of immature neurons in aged human hippocampus track Alzheimer’s pathology and cognitive resilience
Autores: Giorgia Tosoni, Dilara Ayyildiz, Sarah Snoeck, Elena P. Moreno-Jiménez, Amber Penning, Estibaliz Santiago-Mujika, Olmo Ruiz Ormaechea, Hyunah Lee, Suresh Poovathingal, Kristofer Davie, Julien Bryois, Will Macnair, Jasper Anink, Luuk E. De Vries, Sahand Farmand, Erik Nutma, Dick F. Swaab, Eleonora Aronica, Jinte Middeldorp, Sandrine Thuret, Laurent Roybon, Onur Basak, Carlos P. Fitzsimons, Paul J. Lucassen, Evgenia Salta
Publicação: Cell Stem Cell
DOI: 10.1016/j.stem.2026.04.002
Siga o Diário da Saúde no Google News

Ver mais notícias sobre os temas:

Neurociências

Cérebro

Mente

Ver todos os temas >>   

A informação disponível neste site é estritamente jornalística, não substituindo o parecer médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde e aos seus tratamentos e medicamentos.
Copyright 2006-2026 www.diariodasaude.com.br. Todos os direitos reservados para os respectivos detentores das marcas. Reprodução proibida.