
Alzheimer sem sintomas
Você sabia que é possível ter Alzheimer e não sofrer as consequências da doença? Este enigma - por que alguns cérebros resistem ao Alzheimer mesmo quando a doença já está presente - vêm desafiando médicos e cientistas há décadas.
Agora, Giorgia Tosoni e colegas do Instituto Holandês de Neurociências (Países Baixos) acreditam ter encontrado uma resposta: A resistência do Alzheimer depende de como células cerebrais específicas, conhecidas como neurônios imaturos, respondem aos danos causados pela doença.
E, de modo mais geral, a descoberta traz informações importantes sobre o mistério da resiliência cognitiva no envelhecimento apresentado por algumas pessoas.
"Cerca de 30% dos idosos que desenvolvem a doença de Alzheimer nunca apresentam sintomas. Realmente não sabemos o porquê. É um grande mistério, e um mistério muito importante," comentou a professora Evgenia Salta, coordenadora da pesquisa.

Resiliência cognitiva
Uma possível explicação para a resiliência cognitiva é que alguns cérebros são melhores em se reparar, eventualmente desenvolvendo novas células cerebrais conforme o cérebro começa a se degenerar pela velhice. Essa neurogênese adulta já foi bem documentada em outros animais, mas sua existência em humanos tem sido debatida há anos.
A equipe está tentando esclarecer isto estudando amostras de cérebros doadas para pesquisas, vindos de doadores sem patologia cerebral, pacientes com Alzheimer e indivíduos com patologia de Alzheimer que permaneceram resistentes ao desenvolvimento de demência.
A equipe encontrou o que procurava: Os chamados neurônios "imaturos", células que se assemelham a neurônios jovens, ainda não totalmente desenvolvidos. "Mesmo com uma idade média superior a 80 anos, ainda encontramos esses neurônios imaturos em todos os grupos," contou Salta.
Mas a maior surpresa veio a seguir: Embora a equipe esperasse encontrar muito mais dessas células no grupo resiliente do que nos pacientes com Alzheimer, a diferença não foi tão grande quanto o esperado. Isso aponta para uma história mais complexa do que se imaginava.
"Pode não se tratar apenas de substituir neurônios perdidos," ponderou a pesquisadora. "É possível que essas células deem suporte ao tecido circundante e ajudem o cérebro a se manter funcional e 'jovem'. Elas podem atuar como uma espécie de fertilizante em um jardim que começou a se deteriorar. Em indivíduos resilientes, essas células parecem ativar programas que os ajudam a sobreviver e a lidar com danos. Também observamos níveis mais baixos de sinais relacionados à inflamação e à morte celular."

Novas perspectivas sobre o Alzheimer
A pergunta que permanece como o alvo crucial das pesquisas é: O que determina como o cérebro envelhece? "Em algum ponto dessa trajetória, existe uma espécie de ponto de decisão. Algumas pessoas permanecem estáveis, outras desenvolvem demência. Queremos entender o que causa essa diferença," resumiu Salta.
Embora os resultados não forneçam respostas imediatas sobre por que algumas células se comportam de maneira diferente em pacientes com Alzheimer e em indivíduos resilientes, elas contribuem para uma mudança crescente na pesquisa sobre Alzheimer: Do foco exclusivo na progressão da doença para a compreensão da resiliência a ela.
"A resiliência cognitiva é extremamente empolgante," ponderou Salta. "Se entendermos o que protege esses cérebros, isso poderá levar a novas estratégias terapêuticas." Por ora, a mensagem é clara: O cérebro em envelhecimento pode ser mais adaptável e mais complexo do que pensávamos.
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