
Dilema do prisioneiro
O dilema do prisioneiro é uma das ideias mais famosas entre os economistas e psicólogos, usada há décadas para, por exemplo, explicar por que o egoísmo muitas vezes supera a cooperação.
Nesse dilema, dois jogadores podem cooperar ou trapacear: O jogo sempre gera uma condição na qual trabalhar juntos dá a maior recompensa a ambos, embora a princípio lhes pareça o contrário. O resultado é que muitas vezes ambos os jogadores acabam trapaceando e perdendo, tornando o jogo uma ótima métrica para avaliar a ética de uma pessoa.
A conclusão principal dos cientistas, seja quando estudam micróbios compartilhando recursos até sociedades humanas negociando conflitos, é que, na corrida evolutiva, os trapaceiros sempre venceriam.
Mas Alexandre Morozov e Alexander Feigel, da Universidade Rutgers (EUA), acabam de inverter essa suposição ao demonstrar que a cooperação pode surgir naturalmente, sem regras especiais (entre humanos) ou laços genéticos (entre animais).
"O dilema do prisioneiro nos ensina há 75 anos que os trapaceiros sempre levam a melhor a longo prazo," comentou Morozov. "Com base nisso, o ponto final de qualquer sociedade é o colapso total. Mas não é bem assim. Mesmo em um cenário muito simples, os trapaceiros nem sempre vencem. Na verdade, é mais fácil que a cooperação prevaleça."

Trapacear ou cooperar?
Os dois pesquisadores descobriram que a chave para a cooperação está em conhecer o oponente: Se os indivíduos conseguirem reconhecer uns aos outros, a cooperação começa a florescer naturalmente.
"Tudo o que você precisa fazer é lembrar com quem interagiu e reagir da mesma maneira," disse Morozov. "Isso é suficiente para que a cooperação surja espontaneamente em muitos cenários. É o que os físicos chamam de propriedade emergente."
Essa descoberta é surpreendente porque as teorias anteriores exigiam condições adicionais, como ajudar parentes ou permanecer em seu grupo. O novo modelo funciona sem essas suposições, indicando que, mesmo em organismos simples, como micróbios ou insetos, a cooperação pode evoluir se esses organismos forem capazes de se distinguir, talvez por meio de sinais químicos ou características físicas.
A teoria dos jogos fundamenta esta pesquisa. Um jogo, no sentido matemático, é uma situação em que os jogadores tomam decisões racionais de acordo com regras definidas para receber algum tipo de recompensa. A teoria dos jogos é o ramo da matemática que estuda essas interações e ajuda a explicar por que estratégias como cooperação ou trapaça surgem na natureza e na sociedade. Em termos estritos, não existe essa tendência intrínseca do jogo em induzir a trapaça.

Cooperação está na base da vida
O professor Morozov destaca que não há surpresa em seu estudo porque a cooperação é a essência fundacional da vida complexa - sem cooperação, as células nem sequer formariam tecidos e as sociedades não existiriam. No entanto, a teoria neodarwinista destaca o egoísmo, do nível do gene até a sociedade humana.
Esta nova pesquisa oferece uma nova maneira de entender como a vida superou esse obstáculo.
"A evolução gosta de moldar as coisas ao longo de longos períodos de tempo, se tiver algum material com que trabalhar," detalhou Morozov. "Se a cooperação sempre acaba, não há nada para evoluir. Mas, se houver uma chance, a evolução irá aprimorá-la e torná-la mais estável."
"Os trapaceiros nem sempre vencem," acrescentou. "A cooperação pode persistir, e de fato persiste em muitos sistemas estudados pelos cientistas, como em organismos multicelulares nos quais as células individuais precisam cooperar para sobreviver."
As implicações vão além da biologia, já que o novo modelo mostra períodos de estabilidade interrompidos por convulsões, padrões que podem soar familiares na história da humanidade.
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