07/04/2020

Não estamos em distanciamento social, estamos em distanciamento físico

Redação do Diário da Saúde
Covid-19: Não estamos em distanciamento social, estamos em distanciamento físico
"Deveríamos pensar neste momento como um distanciamento físico, para enfatizar que podemos permanecer socialmente conectados, mesmo estando separados," diz o professor Jamil Zaki.
[Imagem: Sarah Deragon]

Distanciamento físico

As mesmas tecnologias que pesquisadores apontavam como culpadas por diminuir o contato social, trocando interações reais por interações virtuais, estão se revelando como a melhor opção para que as pessoas permaneçam "juntas" - ou conectadas - durante a epidemia de covid-19.

O distanciamento social - limitar voluntária ou obrigatoriamente a interação física com outras pessoas - tem sido vital para ajudar a retardar a propagação do novo coronavírus.

Contudo, é importante que as pessoas permaneçam conectadas durante o distanciamento social, caso contrário, o que pode se tornar viral será uma crise de saúde física e mental a longo prazo, alerta o professor Jamil Zaki, da Universidade de Stanford (EUA).

Zaki e sua equipe têm examinado como a empatia funciona e como as pessoas podem aprender a ter empatia de maneira mais eficaz.

Nesta entrevista, ele discute estratégias que as pessoas podem usar para se manter conectadas, começando com a reformulação do "distanciamento social" para "distanciamento físico", de forma a destacar como as pessoas podem permanecer unidas, mesmo estando separadas.

Quais são os impactos psicológicos que surgem com o distanciamento social e o ficar dentro de casa?

Jamil Zaki - O distanciamento social é vital para retardar a propagação da covid-19, mas também vai contra a necessidade fundamental de conexão entre os seres humanos. Especialmente em tempos difíceis, as pessoas sentem vontade de simpatizar, confortar e ser consoladas umas pelas outras.

Experimentos mostram que o apoio dos entes queridos suaviza nossa resposta ao estresse e até a resposta de nossos cérebros a choques elétricos dolorosos. Por outro lado, a solidão é psicologicamente venenosa; ela aumenta a insônia, depressão, bem como problemas imunológicos e cardiovasculares. De fato, a solidão crônica produz um risco de mortalidade semelhante ao de fumar 15 cigarros por dia.

Devemos fazer o que é certo em termos de saúde pública e ficar em casa agora, mas, se isso produz uma solidão crônica e generalizada, uma crise de saúde física e mental a longo prazo pode se seguir a essa crise viral.

Existe uma prevenção para a solidão?

Jamil Zaki - Eu acho que deveríamos começar reformulando o que estamos fazendo agora. Para começar, "distanciamento social" foi um termo errado. Deveríamos pensar neste momento como um "distanciamento físico", para enfatizar que podemos permanecer socialmente conectados, mesmo estando separados. De fato, encorajo a todos nós a praticar a "socialização à distância". Ironicamente, as mesmas tecnologias que frequentemente culpamos por destruir nosso tecido social podem ser nossa melhor chance, agora, de mantê-lo unido.

Covid-19: Não estamos em distanciamento social, estamos em distanciamento físico
Não faltarão solidariedade e empatia: Algumas regras morais valem em todas as culturas.
[Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay]

A tecnologia é certamente uma grande ajuda, mas e as pessoas que têm acesso limitado a essas ferramentas?

Jamil Zaki - Infelizmente, as pessoas que são mais vulneráveis aos estragos da covid-19, principalmente os idosos, também são mais suscetíveis ao isolamento incapacitante e menos familiarizadas com a tecnologia. Este é um momento para ajudá-los a acessar a tecnologia sempre que possível, para ter paciência em nossas orientações de configuração de um novo software.

Mas existem outras maneiras de se conectar também. Fico emocionado com vídeos de italianos cantando juntos em suas varandas, um simples ato de solidariedade e união que nos lembra que estamos nesse momento juntos, mesmo quando distantes.

O que você acha que falta ou engana na discussão sobre a nova pandemia de coronavírus?

Jamil Zaki - Nas representações da mídia, as pessoas geralmente reagem a desastres tornando-se egoístas e violentas, como se as luzes se apagassem e as regras que parecem desaparecer lhes permitissem liberar seus verdadeiros eus antissociais. Vimos isso na esteira da crise da covid-19, por exemplo, em cenas de pessoas brigando entre si por papel higiênico.

Mas a verdade mais comum é oposta.

Após desastres, as pessoas saem de suas casas para ajudar umas às outras, permanecendo na fila por horas para doar sangue, protegendo e ajudando estranhos, ignorando fronteiras típicas ou raça e classe social, no que Rebecca Solnit chama de "carnaval da compaixão".

Mas aqui também a epidemia torna as coisas difíceis, porque é mais difícil ajudar as pessoas se não pudermos estar fisicamente perto delas.

Uma coisa a se lembrar, porém, é que, mesmo a decisão de se distanciar socialmente é um ato de bondade. Pessoas jovens e saudáveis correm um risco relativamente baixo, mesmo que peguem a covid-19, o que significa que sua decisão de isolar a si mesmas é uma maneira de proteger os membros mais vulneráveis de sua comunidade. Eu acho que somente essa ação já pode ajudar. Até a decisão de se isolar é um ato de solidariedade - um ato que adotamos sozinhos, mas também juntos.

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