
Para que servem medo e ansiedade?
Do ponto de vista da teoria evolutiva, o medo e a ansiedade estão longe de serem um fardo ou algo negativo: São instintos de sobrevivência forjados por meio da seleção natural. Ao ativar regiões cerebrais herdadas dos ancestrais, como a amígdala e o hipocampo, essas características permitiram que os humanos evitassem o perigo e sobrevivessem ao longo das gerações.
Mas um nível crônico de instabilidade emocional, tipicamente causado por medo e ansiedade duradouros, definem um traço de personalidade que os psicólogos chamam de neuroticismo, marcado pela propensão a experienciar sentimentos negativos.
E é aí que a visão evolutiva não base com os estudos epidemiológicos modernos, emergindo uma contradição intrigante: Altos níveis de neuroticismo estão associados a maiores riscos de transtornos mentais, doenças crônicas e até mesmo mortalidade, algo que ninguém apontaria como suporte para uma sobrevivência de longo prazo.
Esse paradoxo levanta uma questão fundamental: Se o neuroticismo é realmente prejudicial, por que ele não foi eliminado pela seleção natural? Será que ele contém dimensões distintas que servem a diferentes propósitos evolutivos?
Para solucionar esse enigma, Yini He e colegas de várias instituições de pesquisa desenvolveram um método baseado em redes de similaridade interindividual para tentar extrair dimensões centrais da personalidade a partir de estruturas topológicas, algo que os métodos atuais não conseguem.
A rede foi alimentada com registros eletrônicos de saúde, dados de rastreamento de mortalidade, imagens estruturais do cérebro, dados genômicos e pesquisas sobre estilo de vida, compondo a primeira análise sistemática multiescalar que abrange desde o fenótipo até o genótipo, e do comportamento até o cérebro em pesquisas sobre personalidade.

Viva moderadamente preocupado
O estudo revelou que o neuroticismo de fato tem uma estrutura bidimensional.
A primeira dimensão está primariamente associada a transtornos mentais e bem-estar, com sua base neural localizada em regiões de regulação emocional de ordem superior, como o córtex cingulado anterior. Variantes genéticas ligadas a essa dimensão indicam que ela pode representar uma adaptação psicológica exclusivamente humana.
Mas a maior surpresa veio com a descoberta da segunda dimensão, que a equipe batizou de Reatividade Emocional e Estabilidade Interna (REEI). A REEI descreve um continuum: Indivíduos com pontuação alta apresentam reatividade emocional caracterizada por ansiedade e preocupação, enquanto aqueles com pontuação baixa demonstram cansaço e instabilidade emocional.
"Surpreendentemente, indivíduos com alta pontuação em REEI, apesar de serem mais propensos à ansiedade e à preocupação, vivem significativamente mais do que aqueles com baixo neuroticismo," explicou He. "Isso ocorre porque essas pessoas se submetem a exames de saúde mais frequentes, evitam ativamente comportamentos de risco e mantêm hábitos alimentares mais saudáveis."
A REEI está associada a estruturas subcorticais mantidas pelos humanos ao longo da evolução, incluindo a amígdala, o hipocampo e o tálamo, representando uma estratégia de sobrevivência antiga. "Esta descoberta demonstra que diferentes dimensões do neuroticismo servem a missões evolutivas distintas: 'Garantir a sobrevivência' versus 'buscar a felicidade'," afirma a pesquisadora. "Preocupar-se moderadamente, mantendo a estabilidade emocional, pode de fato ser um dom da natureza para a longevidade."
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