
O que é ser religioso no Japão?
Há uma aparente contradição no cerne da religiosidade do Japão: Embora mais de 40% dos entrevistados se descrevam como não-religiosos ou ateus, uma grande parte dessas mesmas pessoas participa ativamente de rituais, como fazer visitas a santuários e participar de cerimônias de cunho religioso.
O fenômeno desafia as categorias ocidentais de religião e revela que, no Japão, a prática ritualística e as crenças estão frequentemente dissociadas da identidade religiosa formal.
O Japão tem uma história secular de miscigenação entre budismo, xintoísmo e tradições populares. Para muitos japoneses, o termo geralmente traduzido como "religião" (shukyo) evoca instituições organizadas e exclusivas para a prática religiosa, mas eles não associam seus rituais cotidianos, que vão de visitas de ano novo a santuários a festivais sazonais e altares domésticos, a essas instituições.
Com isto, os instrumentos usados pelas ciências sociais, construídos a partir do modelo do cristianismo ocidental - que pressupõe uma afiliação clara, crenças definidas e uma prática regular para chamar alguém de religioso - mostram-se inadequados para capturar essa realidade multifacetada da espiritualidade japonesa.

Complexidade da religiosidade japonesa
Para preencher essa lacuna, Koki Shimizu e Yoshihide Sakurai, da Universidade Doshisha, analisaram dados de uma pesquisa nacional representativa com mais de 4 mil participantes, examinando simultaneamente três dimensões: Identidade religiosa autodeclarada, participação em rituais e crenças sobre deuses ou vida após a morte.
Os resultados revelaram um quadro complexo.
Muitos entrevistados se identificam com mais de uma tradição, como budismo e xintoísmo simultaneamente, sem perceber contradição nisso - isso é facilitado pelo fato de o Budismo não cultuar um deus antropomorfizado. As crenças em deuses e na vida após a morte são diversas e não se alinham ordenadamente com as categorias convencionais de identidade religiosa.
Assim, a religiosidade no Japão, concluem os autores, é expressa por meio de práticas culturalmente enraizadas e tradições herdadas, em vez de o ser por uma crença formal ou pela filiação a alguma instituição.
Implicações para as ciências sociais
O estudo também traz à tona um problema metodológico com amplas implicações para as ciências sociais: Pequenas diferenças no enunciado das perguntas - como perguntar se alguém "acredita em" ou "tem" uma religião - produzem resultados muito diferentes, alterando drasticamente as estimativas da população não-religiosa.
Os pesquisadores afirmam que a compreensão dessa realidade religiosa mais matizada e sensível ao contexto do Japão pode contribuir para discussões mais substanciadas sobre temas religiosos na mídia, nas salas de aula e no diálogo intercultural. E isso inclui melhorar o projeto dos estudos futuros sobre religião e valores, tanto na Ásia quanto em comparações internacionais mais amplas.
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