26/05/2026

Medo e ansiedade ainda são úteis aos humanos? A resposta irá lhe surpreender

Redação do Diário da Saúde

Para que servem medo e ansiedade?

Do ponto de vista da teoria evolutiva, o medo e a ansiedade estão longe de serem um fardo ou algo negativo: São instintos de sobrevivência forjados por meio da seleção natural. Ao ativar regiões cerebrais herdadas dos ancestrais, como a amígdala e o hipocampo, essas características permitiram que os humanos evitassem o perigo e sobrevivessem ao longo das gerações.

Mas um nível crônico de instabilidade emocional, tipicamente causado por medo e ansiedade duradouros, definem um traço de personalidade que os psicólogos chamam de neuroticismo, marcado pela propensão a experienciar sentimentos negativos.

E é aí que a visão evolutiva não base com os estudos epidemiológicos modernos, emergindo uma contradição intrigante: Altos níveis de neuroticismo estão associados a maiores riscos de transtornos mentais, doenças crônicas e até mesmo mortalidade, algo que ninguém apontaria como suporte para uma sobrevivência de longo prazo.

Esse paradoxo levanta uma questão fundamental: Se o neuroticismo é realmente prejudicial, por que ele não foi eliminado pela seleção natural? Será que ele contém dimensões distintas que servem a diferentes propósitos evolutivos?

Para solucionar esse enigma, Yini He e colegas de várias instituições de pesquisa desenvolveram um método baseado em redes de similaridade interindividual para tentar extrair dimensões centrais da personalidade a partir de estruturas topológicas, algo que os métodos atuais não conseguem.

A rede foi alimentada com registros eletrônicos de saúde, dados de rastreamento de mortalidade, imagens estruturais do cérebro, dados genômicos e pesquisas sobre estilo de vida, compondo a primeira análise sistemática multiescalar que abrange desde o fenótipo até o genótipo, e do comportamento até o cérebro em pesquisas sobre personalidade.

Medo e ansiedade ainda são úteis aos humanos? A resposta irá lhe surpreender
Medo e ansiedade podem estragar ganhos políticos de décadas.
[Imagem: Martin Obschonka et al. - 10.1177/1948550618755874]

Viva moderadamente preocupado

O estudo revelou que o neuroticismo de fato tem uma estrutura bidimensional.

A primeira dimensão está primariamente associada a transtornos mentais e bem-estar, com sua base neural localizada em regiões de regulação emocional de ordem superior, como o córtex cingulado anterior. Variantes genéticas ligadas a essa dimensão indicam que ela pode representar uma adaptação psicológica exclusivamente humana.

Mas a maior surpresa veio com a descoberta da segunda dimensão, que a equipe batizou de Reatividade Emocional e Estabilidade Interna (REEI). A REEI descreve um continuum: Indivíduos com pontuação alta apresentam reatividade emocional caracterizada por ansiedade e preocupação, enquanto aqueles com pontuação baixa demonstram cansaço e instabilidade emocional.

"Surpreendentemente, indivíduos com alta pontuação em REEI, apesar de serem mais propensos à ansiedade e à preocupação, vivem significativamente mais do que aqueles com baixo neuroticismo," explicou He. "Isso ocorre porque essas pessoas se submetem a exames de saúde mais frequentes, evitam ativamente comportamentos de risco e mantêm hábitos alimentares mais saudáveis."

A REEI está associada a estruturas subcorticais mantidas pelos humanos ao longo da evolução, incluindo a amígdala, o hipocampo e o tálamo, representando uma estratégia de sobrevivência antiga. "Esta descoberta demonstra que diferentes dimensões do neuroticismo servem a missões evolutivas distintas: 'Garantir a sobrevivência' versus 'buscar a felicidade'," afirma a pesquisadora. "Preocupar-se moderadamente, mantendo a estabilidade emocional, pode de fato ser um dom da natureza para a longevidade."

Checagem com artigo científico:

Artigo: The dual nature of neuroticism: distinct dimensions impact longevity and well-being
Autores: Yini He, Jing Xiao, Ke Hu, Tian Gao, Yan Yan, Yu Yu, Lei Wang, Kaixin Li, Wenkun Lei, Kun Zhao, Changsheng Dong, Xiaohan Tian, Chaoyue Ding, Yingjie Peng, Junxing Xian, Shangzheng Huang, Xiya Liu, Yiheng Tu, Long Li, Peng Zhang, Bing Liu
Publicação: Science Bulletin
DOI: 10.1016/j.scib.2026.01.035
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