12/03/2012

Processo de reparo de DNA explica doença rara da pele

Redação do Diário da Saúde
Processo de reparo de DNA explica doença rara da pele
Pesquisas podem ajudar pacientes com câncer e com uma condição rara chamada xerodermia pigmentosa.
[Imagem: Wikimedia]

Xeroderma pigmentoso

Quando seu DNA sofre uma lesão, ele se repara, e o bom funcionamento deste processo é essencial.

Alguns vermes vão além, e se "autoconsertam" indefinidamente, eventualmente alcançando uma "imortalidade prática".

No homem há preocupações mais prementes, como salvar as vidas de pessoas que poderiam naturalmente viver mais, ou melhorar o nível de vida de muitas outras.

A equipe do professor Carlos Menck, da USP, por exemplo, está estudando a relação entre os danos no DNA e o xeroderma pigmentoso.

A doença consiste em uma deficiência na capacidade do organismo em reparar lesões causadas pelos raios ultravioleta à pele dos pacientes, aumentando a probabilidade de ocorrência de câncer de pele.

A condição, apesar de grave, é rara. "Uma a cada 200 mil pessoas sofre dessa doença", conta o pesquisador.

Mutações genéticas

Para exemplificar a diferença fundamental do funcionamento dos mecanismos entre quem tem e quem não tem xerodermia, o professor dá um exemplo comum de lesão de DNA.

"Quando se vai pra praia, a pele se queima porque o sol está lesando o DNA, então as células da epiderme morrem e a pele começa a descascar," descreve. "Já em pacientes com xerodermia, as lesões não são são reparadas," explica.

Buscando compreender o funcionamento do mecanismo nestes últimos, o grupo utiliza algumas amostras de pacientes brasileiros, trabalho que a equipe desenvolve há cerca de sete anos, quando foi descoberta em Goiás uma comunidade isolada com cerca de 20 pessoas sofrendo da doença.

De acordo com o professor, através as pesquisas já identificaram quatro mutações genéticas em três famílias de pacientes - passo importante para tentar compreender o motivo que leva o portador desta condição a ter mais probabilidade de desenvolver um câncer. "Nós acreditamos que já temos parte da resposta", avalia.

Lesões à pele causadas pelo sol

O grupo de pesquisadores desenvolveu um equipamento capaz de determinar o nível ds lesões causadas pela exposição ao sol e buscar preveni-las.

"É possível medir a capacidade de proteger as células do sol e aplicar isso em um filtro solar", explica o pesquisador, que já realizou o pedido de patente para a descoberta.

Ele ressalva, porém, que esse será um trabalho com resultados para médio e longo prazo, mas está em curso.

Um dos maiores avanços alcançados pelo grupo do professor Menck para o tratamento de pacientes com xerodermia pigmentosa foi a criação de um vetor para tratamento gênico, mas ele ainda enfrenta problemas.

"O vetor funciona muito bem, mas apenas uma vez", descreve. "Por ser viral, o sistema imunológico só deixa que ele tenha efeito por cerca de dois meses".

Envelhecimento precoce

Outra condição enfrentada por alguns pacientes com xerodermia pigmentosa é o envelhecimento precoce e a neurodegeneração. "Alguns pacientes chegam a morrer antes de completar 10 anos", conta o docente.

A partir do estudo da condição destes pacientes, ele busca compreender e retardar o envelhecimento humano. "Atualmente já está estabelecido que isso é ligado ao fato de haver mais ou menos lesões no DNA", esclarece.

Apesar do foco da pesquisa de Carlos Menck serem as células humanas, o pesquisador também realiza diversos estudos com bactérias, buscando entender melhor o funcionamento dos mecanismos de reparo do DNA.

"Nós temos genes parecidos justamente com os genes de bactérias que servem para a manutenção da estrutura da molécula do DNA", explica.

Quimioterapia mais suave

Em outra linha de pesquisa, o professor estuda casos de câncer gerados por lesões do DNA - o que pode acontecer de várias formas. "O fumo, por exemplo, lesa o DNA e causa câncer", conta o professor, explicando que origem desses tumores não são as lesões em si, mas sim a falta de reparo delas: "o reparo de DNA é o que nos protege do câncer".

O professor adverte que o reparo de DNA nem sempre é algo favorável ao paciente que já apresenta câncer, como no caso dos efeitos colaterais derivados do uso de quimioterápicos.

"A medicação lesa o DNA e causa a morte das células cancerosas, mas elas não lesam apenas o DNA das células cancerosas, como também de outras células, causando problemas", explica.

Neste caso, o reparo de DNA joga contra o paciente: "o reparo de DNA protege as células cancerígenas das lesões causadas pela medicação, então são necessárias altas doses de quimioterápicos para matar as células".

Para minimizar esses problemas, busca-se inibir especificamente no tumor o sistema de reparo de DNA, o que despenderia menos medicação, diminuindo assim as lesões causadas pelos quimioterápicos.

A pesquisa encontra-se em fase pré-clínica, ainda sem a realização de testes - o professor, contudo, se mostra confiante: "os avanços são lentos, mas nós estamos caminhando".

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